Incendiário aos 20, bombeiro aos 40 – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Tem esse dito popular, que pelo visto nem é tão popular, já que toda vez que falo nele ninguém sabia que existia. Por esse dito popular, a maioria das pessoas é muito intempestiva na juventude e vai se acalmando com a chegada da maturidade. Ou seja: quem é incendiário aos 20 anos acaba se transformando em bombeiro na meia idade. Será que é assim pra todo mundo? Pra mim acho que sim e esse pensamento me veio agorinha mesmo, aqui neste shopping, lugar que não costumo frequentar, mas é o mais perto que encontrei pra fazer um lanche rápido.

Estou na praça de alimentação, onde o cheiro de fritura inunda o ar, que já estava tomado pelo ruído de mastigação dos adultos e pela gritaria das crianças. Você pode achar que eu sou um cara meio ranzinza, mas pelo menos estamos concordando em algo. Sou um cara ranzinza mesmo e estar num shopping agrava essa condição, já que este não é um programa que aprecio. Vejo aqui muita gente plastificada, etiquetada.

Quando eu era jovem, bem mais jovem, e bem antes dessa onda de terrorismo, eu pensei em explodir um shopping. Eu considerava shopping center o templo-mor do consumismo, um dos tentáculos do capitalismo. Isso me exasperava e alimentava minha alma guerrilheira, me fazendo cometer atos individuais de rebeldia que eu acreditava estarem solapando, minando os alicerces do capitalismo. Boicotava tudo o que o imperialismo impunha, não bebia Coca-Cola, não usava calça jeans, não assistia à Rede Globo e jamais colocava meus pés numa agência bancária. Eu era um militante solitário na minha revolução particular.

Como disse, isso foi há muitos anos, quando eu era incendiário. Hoje, como bombeiro, procuro apagar as chamas dos arroubos outrora juvenis. Já faz bastante tempo que constatei, com resignação, que minha tentativa de revolução foi malograda, quando caí nas armadilhas que o capitalismo cria para perpetuar-se no controle da situação. Quando somos obrigados a sobreviver, a procurar emprego, temos que renunciar às nossas utopias. Pelo menos, foi assim pra mim. É difícil se manter fiel a ideais quando a realidade vem massacrando nos salários irrisórios, nas condições precárias de trabalho que você tem que ir aceitando.

Só que este papo está ficando meio depressivo. Vou parar por aqui, aproveitando que não tenho mais tempo pra revoltas e o lanche acaba de chegar. Vou comê-lo junto com os desaforos que sou obrigado a engolir todos os dias. Bom apetite.

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