Inspirações no Bar: literatura marginal, birita e produção cultural

Luiz Jorge Ferreira, Fernando Canto, Elton Tavares e Lorena Queiroz entram em um bar. O ambiente esfumaçado, à meia luz é frequentado pelas melhores e piores companhias. Assim que o boteco é bom. Ao som de um bandolim, violão ou guitarra, entre uns goles e outros, eles confabulam sobre seus aventuras e desventuras. Fazia anos que marcaram esse encontro etílico para falar sobre a literatura marginal mútua que compartilham há anos no site Blog De Rocha. Os dois primeiros citados, poetas. E os últimos mencionados, cronistas. Tá, tudo bem, são todos contistas.

Fernando também escreve crônicas. Lorena produz resenhas literárias e Luiz entoa textos poéticos. Eu, Elton, além de redigir meus devaneios, sou o jornalista que publica todos eles. Enfim resolveram batizar parte dessa produção em um livro que se chamará “Antologia Bares”. A obra é fruto da vivência dos quatro em levantar muitas taças de vinho, tomarem umas e outras em excesso em suas famosas e longas bebedeiras. Conversas essas com leve embriaguez ou excessivamente bêbados.

De volta ao ponto, a literatura marginal possui o papel fundamental de dar voz às experiências muitas vezes esquecidas ou marginalizadas pela sociedade convencional. Dentro desse universo, as histórias e estórias de bar emergem como uma expressão autêntica das vivências cotidianas permeadas por humor, relatos, aventuras e desventuras. Esta forma de narrativa não apenas resgata a essência das relações humanas, mas também desafia as normas literárias tradicionais, que oferecem uma visão crua e autêntica da realidade.

Sem nenhuma apologia ao alcoolismo, mas a maioria dos intelectuais bebem. E muito! “Para conviver com os tolos um homem inteligente precisa beber”, disse Hemingway. Claro que o goró estimula a criatividade, é só lembrar dos fascinantes papos que batemos durante uma simples reunião etílica.

Conhecidos cachacistas épicos são geniais e respeitados escritores. Bons exemplos são: Truman Capote, Vinicius de Moraes, Jack Kerouac, F. Scott Fitzgerald, Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway e icônico biriteiro Charles Bukowski. Também mestres da Literatura daqui que foram e são chegados numa birita, como os fantásticos Alcy Araújo, Isnard Lima e Fernando Canto.

Na obra dos quatro escritores, os bares, com sua atmosfera descontraída e propícia ao encontro de pessoas das mais diversas origens, se tornam palco para uma rica tapeçaria de experiências humanas. As narrativas que nascem nesse ambiente exploram a complexidade das relações interpessoais, oferecendo um retrato sincero e, muitas vezes, humorístico da condição humana. O humor, em especial, torna-se uma ferramenta poderosa nas mãos dos escritores marginais, permitindo uma abordagem crítica e irreverente diante de temas sensíveis e tabus.

Ao contrário da literatura convencional, que muitas vezes busca a idealização e a formalidade, as histórias de bar na literatura marginal celebram a autenticidade. Elas capturam as nuances das experiências cotidianas, expondo as alegrias efêmeras e as tristezas profundas que se entrelaçam nos encontros e desencontros humanos. Essas narrativas, ao invés de romantizar a vida, optam por desnudar a realidade, enfrentando as contradições e os desafios de forma visceral.

As aventuras e desventuras contadas em meio a copos de cerveja ou doses de destilados transformam-se em metáforas poderosas para a condição humana. Os personagens dessas histórias, muitas vezes excluídos pela sociedade, ganham vida própria e representam uma resistência à marginalização literária. Ao explorar as profundezas emocionais de personagens comuns, a literatura marginal revela uma riqueza de histórias que, de outra forma, permaneceriam no anonimato.

Além disso, as histórias de bar na literatura marginal desempenham um papel importante na desconstrução de estigmas e preconceitos. Ao expor as camadas mais íntimas das vidas dos personagens, essas narrativas desafiam os estereótipos, proporcionando uma compreensão mais profunda e empática das diversas realidades que coexistem à margem da sociedade.

Em síntese, as histórias e estórias de bar enriquecem o panorama literário ao oferecer uma perspectiva autêntica e diversificada das experiências humanas. Elas desafiam convenções, celebram a singularidade das vivências cotidianas e, acima de tudo, proporcionam um espaço para vozes antes silenciadas. Essa abordagem única e irreverente contribui para a construção de uma literatura mais inclusiva, que reflete a riqueza e a complexidade da condição humana em sua forma mais crua e honesta.

Em meio à penumbra aconchegante, as risadas se misturam com o tilintar dos copos, desdobram-se histórias singulares que transcendem o simples ato de beber. Nesses espaços, onde a cultura se insinua entre as conversas entrecortadas, a literatura encontra um lar peculiar, um terreno fértil para suas sementes germinarem.

Não temos fotos com o Luiz Jorge. Montagem feita enquanto o encontro etílico não rola, pois vale o improviso.

No livro, eles criam um microcosmo efervescente de experiências. Ao adentrar nesse universo, somos recebidos por uma sinfonia de vozes, cada uma delas contando sua própria história, como capítulos de um livro inacabado. Na mesa, as páginas se desdobram em diálogos intensos e confissões sussurradas ao pé do ouvido. Tudo ganha vida ao sabor de um gole de cerveja ou vinho.

E assim, o bar se converte em um epicentro cultural, onde a literatura é mais do que palavras impressas; é um eco das vidas que ali se entrelaçam, uma sinfonia de experiências que ressoa entre as estantes de garrafas e os murmúrios da clientela. Onde a bebida, além de aquecer gargantas, aquece almas e fertiliza a produção cultural, fazendo de cada noite um capítulo memorável na efêmera epopeia de um boteco qualquer.

É assim, como disse a Lorena (que já bebeu até com Zaratustra): “o Tratado Noturno em uma mesa de bar” ou Canto, quando entoado, afirmou que Bar é uma Antena Social. Bem que o Luiz Jorge previu esse encontro, quando em um conto, disparou: “… e que havia recebido um telefonema de Macapá dos escritores Fernando Canto, Elton Tavares, Lorena Queiroz, porque haviam tido notícias sobre o Bar Cochilo, e vinham a mim convidar para escrever alguma coisa sobre ele, tendo em vista que havia morado em Macapá e haveriam de publicar um Livro sobre estórias de Bares…”. E rolou mesmo. É isso!

Elton Tavares

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