Intercâmbio cultural: músico amapaense Fineias Nelluty está em turnê na África

Finéias Nelluty e a cantora Sara Tavares, de Cabo Verde.

O produtor, músico, cantor, multi-instrumentista, idealizador e organizador do Festival de Música Instrumental do Amapá (Feminsap, ex Jéssica Candomblé, famosa bicha do Brega), um dos personagens principais da música amapaense, artista multifacetado e talentosíssimo, além de meu amigo de longa data, Fineias Nelluty está em turnê em Cabo Verde, na África.

O versátil e genial artista amapaense levou para o continente Africano a sua “Zankeirada”, estilo regional dançante, fruto de experiências na Guiana Francesa e Caribe. Lá, ele já interagiu com personalidades da música local neste magnifico intercâmbio cultural.

Filho de maestro e membro de uma família de músicos, Finéias Nelluty sempre esteve na luta pela música e cultura. Para vocês entenderem melhor todo o empenho deste artista amapaense, republico uma história do cara: “A Fronteira da Travessia “,  contada pelo médico Geraldo Roger Normando Jr, sobre o Rei da Zankeirada e escrita pela jornalista Mariléia Maciel

 A Fronteira da Travessia

Depois do mar do Oiapoque avista-se o do Caribe…

– Pra onde pensa que vai?

– Caiena!

– Qual tua idade?

– Dezessete.

– Não, não. Pode chispar daí se não tiver o dinheiro da passagem.

– O Claude Buchert está me esperando. Vai acertar tudo quando aportarmos.

– Descreio. Não conheço nenhum Claude. Mais: os franceses estão restringindo a entrada de estrangeiros pelo Atlântico; ainda: você é de menor!

O diálogo entre Corumbá e o menino aconteceu em 1987, no porto do Oiapoque, onde começa o Brasil. O pequeno, desacanhado, só queria atravessar a fronteira na busca do sonho de todo artista e não poderia temer o tatuado marinheiro musculoso e bafento.

Quando o menino conheceu Claude, francês de Tolouse, tempos antes em Macapá, ganhou a promessa de montar, em Caiena, uma banda que mostrasse a riqueza do ritmo amazônico. Tudo porque Claude, promotor musical, avistou certa vez o tal moleque multi-instrumentista num recanto tucuju e ficou deslumbrado com seu talento.

O marinheiro não permitiu o embarque.

Noite adentro, mar rosnando, Corumbá descobre o moleque encafuado entre outros passageiros, só com a roupa do corpo. Corumbá puxou-o pela gola da camisa para jogá-lo ao mar. O menino aponta para o piso do barco onde há uma fresta por onde mina água. Lá estava fincado o pé direito dele contendo o vazamento, pois a calafetagem havia descolado em plena travessia. Corumbá se viu em apuros e todos apelaram. Ele cedeu. A viagem toda foi o garoto jogando de volta, com uma cumbuca, a água que entrava pela falha.

Do caribe o menino só conhecia histórias do pai músico, que ligava o radinho de pilha para ouvir os ritmos, em ondas tropicais. Mas o menino queria mesmo era atravessar as ondas do rádio, beber da fonte e saber se a velha promessa de Claude ainda estaria no ar… ou ficaria no mar.

A monotonia da viagem foi vencida pelo marmulhar das ondas batendo no casquinho, cujo motor parecia falhar a cada estrondo na lateral. Não havia um trisco de horizonte; a noite era só breu e o céu sustentava estrelas e o sonho do pequeno. Foi-se construindo a esperança a cada hora, mas vez por outra era carcomida pelo medo de emborcar e todos virarem tira-gosto de tubarão.

Ele dizia que sua alma de músico era um rio estagnado, pois nenhum vento enluava a vela de seus sonhos. Por isso estava ali, caolho da vida com a voz trancafiada no amanhecer vindouro. Pelas esquinas de sua cidade vivia à deriva e sob ilusão de acordes e harmonias nas cantorias regadas a incertezas. Sentia-se irmão das coisas sem adjetivos. O próprio nome desafinava entre o sonambulismo de atravessar a fronteira e a esperança de encontrar Claude.

Relembra com exatidão a chegada, após fuga a braçadas até a praia de Montjoly – sem esquecer que o débito da passagem ficou “dependurado”, salvaguardado pelo pé do moleque. Por fim, a experiência jamais lhe saiu da memória e a travessia o assombrou por mais de três anos, até o retorno definitivo pelo mesmo caminho – coisa de memória, antes que a modernidade delete.

Na mochila da volta trouxe não só o culto à língua de Baudelaire, mas a tessitura caribenha transfigurada em zankerada.

Conta ainda que na volta reencontrou o velho marinheiro e fez questão de pagar uma passagem a mais e ainda resistir ao troco. Dívida saldada, Corumbá e o menino Fineias Nelluty se tornaram amigos.

Vinte anos após aquele diálogo foi iniciada a construção de uma ponte estaiada na fronteira entre as duas nações, mas ainda se aguarda por histórias de comunhão e progresso, que não devem afogar fecundos relatos de travessias pelo mar da história. Ou como diria na canção “A ponte” de Zé Miguel e Jeresier: Mais c`est bien plus qu`um pont une autre vision.

*História contada pelo médico e navegador das letras, Geraldo Roger Normando Jr, sobre o músico Finéias NellutyMariléia Maciel

Finéias Nelluty e artistas em Portugal, antes de sua chegada em Cabo Verde.

Meu comentário: mesmo com todas as dificuldades, Finéias Nelluty toca em hospitais, na rampa do Santa Inês ou na calçada de sua casa. Ele já realizou vários projetos musicais e sociais importantes no Amapá e agora dá mais um passo em sua brilhante carreira. A aventura dele no Continente Africano irá até junho de 2018. Me orgulho de ser amigo de um figura que, além de talentosíssimo, é um cara extremamente gente fina. Sucesso sempre, mano velho!

Elton Tavares

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