Kafka e a caixa d’água transbordante

Crônica de Ronaldo Rodrigues

A caixa d’água começa a transbordar na casa ao lado. E ninguém desliga. Fico puto quando isso acontece. Parece que ninguém se importa com a água indo pelo ralo sem ser usada. Eu sinto como meu sangue estivesse escorrendo.

Bato na porta do vizinho, ninguém atende. A família deve ter saído para o lazer de domingo e deixou a bomba ligada. Já vejo a família curtindo o domingo na maior paz de consciência, à beira do rio Amazonas, enquanto o próprio rio Amazonas se esvai pelo ladrão da caixa d’água.

Resolvo pular o muro que divide o meu quintal e o do vizinho para desligar a bomba. Eis que Kafka surge em meu caminho. Kafka é a cadela buldogue do vizinho. Não me pergunte por que deram o nome de Kafka para ela. Os vizinhos não parecem pessoas familiarizadas com literatura. 

Kafka está deitada entre o muro em que estou e o interruptor. Enquanto tento vencer o medo e me lançar naquela aventura de tentar desligar a bomba, a água cai em cachoeira, aumentando a minha aflição.

Kafka não nota minha presença. Ou finge não notar. Já ouvi falar de cachorros que deixam a pessoa se aproximar sem dar alarme até que não haja possibilidade de fuga. Quando penso em descer do muro e enfrentar Kafka, eis que a bomba se desliga sozinha. Deve haver algum dispositivo que regula o tempo em que a bomba fica ligada. Menos mal.

Kafka olha para mim e boceja com aquela boca enorme de buldogue. Acho até que ela está rindo da minha aflição. Fico aliviado por não ter que enfrentar Kafka. Desço do muro, são e salvo, e comemoro o fato escrevendo esta crônica.
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