Lendas: A MALDIÇÃO DO PADRE EM MAZAGÃO VELHO

Mazagão Velho2

Mazagão, no tempo em que era próspera vila e o rio Mutuacá era constantemente singrado por embarcações, sorria à tranqüilidade do desenvolvimento, sem fome e sem pobreza. Sua população vivia não só do comércio, mas também da produção de alimentos e criação de animais.

A pecuária estava se fortificando cada vez mais e toda produção era comprada por comerciantes que chegavam em barcos, deixando em troca tabaco, café e tudo o mais que fosse necessário.

Como vila muito rica, Mazagão não esqueceu a religiosidade. Sua igreja tencionava causar inveja à Portugal pela beleza e ornamentação. Para isso foi trazido aquele padre para ocupar o lugar do então pároco, que há mais de 20 anos havia falecido na vila. O padre profundo conhecedor da religiosidade portuguesa convenceu os mazaganenses que seus santos deveriam ser de barro, mas com cabelos naturais, utilizando-se as sobras do barbeiro. Ficou decidido ainda que os olhos dos santos, principalmente os do padroeiro São Tiago, seriam de diamantes, transmitindo assim toda a riquezas toda a prosperidade do lugar.

Foi nesse espírito de grandeza que receberam o padre, um homem gordo das riquezas portuguesas, bonachão e muito falante, que para demonstrar simpatia chamou para sacristão um negro da própria vila. O negro, como é o dever de todo sacristão, ajudava nos afazeres diários, fosse acendendo uma vela, limpando o cálice bento ou servindo a hóstia sagrada aos freqüentadores da igreja. Em pouco tempo o padre juntou uma boa fortuna, seguindo pelo rio Mutuacá até o Pará, e retornando dali com dezenas de brilhantes em forma de olhos. Mais alguns dias e se podia vislumbrar a beleza dos santos, principalmente quando a luz da lua refletia nas pedras derramando salpicos luminosos por toda a capela.

Na inauguração a festa foi grande. Durante toda a noite e arraial teve batuque, dança e muita bebida. Quando o dia vinha amanhecendo, o sacristão, curioso, foi olhar bem de perto os santos, e não resistindo ao fulgor da jóia em um dos olhos de São Tiago, quis tocá-la. Mal colocada, a jóia caiu, despedaçando-se. Descobriu-se então que não passava de vidro muito bem trabalhado.

O padre foi preso e condenado à morte pelos moradores irados. Quando estava na eminência de balançar no cadafalso, o sacerdote limpou suas sandálias no chão e amaldiçoou o povoado, profetizando que em alguns anos o rio Mutuacá ficaria tão seco que seria possível uma galinha atravessar andando por seu leito. Morto o padre desonesto, o rio também começou a morrer. Seu leito foi se estreitando de tal maneira que até mesmo as pequenas embarcações tinham dificuldades em navegar. Em pouco tempo morreu também o comércio local e muitos mudaram-se em busca de melhores condições de vida, formando a vila de Mazagão Novo.

O rio? Continua secando e hoje não é mais que um córrego facilmente atravessado por animais de pequeno porte.

Fonte: blog do Edgar Rodrigues

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