Liberdade para Anne Frank – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Sempre que vejo alguma manifestação reivindicando alguma coisa, ou muitas coisas, penso em Anne Frank. Penso em alguém segurando um cartaz que bem poderia ser ultrapassado, mas não é. Um cartaz que diz: “ LIBERDADE PARA ANNE FRANK”.

“Anne Frank! Como assim?”, pergunta meu interlocutor invisível, aquele a quem sempre recorro quando tenho uma ideia meio fora de alguma lógica, se é que existe alguma lógica em alguma coisa. Pois a história de Anne Frank fugiu à lógica. Quem dera fosse apenas um filme, em que termina a ação, desligam-se as câmeras, desfaz-se o cenário e todos voltam para casa.

Penso em Anne Frank enclausurada por cerca de dois anos num esconderijo mínimo, um sótão, com sua família e outras pessoas, tentando escapar à perseguição nazista. Penso em Anne Frank e me pergunto quem vai devolver a ela o que foi tomado. Os sonhos de se tornar escritora ou atriz. As condições para que ela exerça com plenitude o alvorecer de sua sexualidade.

Um cartaz no meio de uma manifestação do nosso tempo pedindo liberdade para Anne Frank não estaria fora de propósito, nem soaria anacrônico, por que a perseguição a Anne Frank continua. Na guerra da Síria, por exemplo, que dura mais de sete anos e que não dá chance para que as crianças sejam somente o que deveriam ser: crianças, e não adultos menores dormindo e acordando em meio a sobressaltos. Há milhares de Anne Frank no caminhar desesperado dos refugiados, saindo de um lugar onde só há incerteza e indo para um lugar em que não há certeza alguma. Quantas Anne Frank estarão agora nas favelas, no meio do fogo cruzado de nossa guerra não declarada oficialmente, que faz suas vítimas diariamente? E quantas delas estarão aprisionadas em casa, cercadas de conforto e de solidão?

Quem vai pedir desculpas em nome da humanidade e de que forma isso pode acontecer? Como chegar e dizer assim: “Foi mal aí, Anne. Saia desse esconderijo, venha sentir o vento fresco no frescor do seu rosto de menina de 14 anos. Venha viver a sua vida, venha fazer tudo aquilo que a sua personalidade apontava em sua narrativa e digressões sobre a vida, o mundo, as pessoas. Venha passear livremente, paquerar, se quiser. Venha ser menina, ser moça, ser mulher. Venha ser famosa de outra forma, por outros escritos, além do seu diário. Ou não: seja somente alguém anônimo que acorda todas as manhãs e parte em busca da sobrevivência, que nunca é fácil, mesmo em tempos de paz. Ia escrever “mesmo em tempos de paz, como o nosso”, mas não achei que estava correto falar assim, apesar da vontade de que assim seja.

Não quero ficar triste. Anne Frank não era triste, embora sua vida de adolescente também comportasse momentos de tristeza, angústia, revolta e até umas fofoquinhas aqui e ali. Muito parecida com a maioria dos adolescentes. E como muitos adolescentes, Anne Frank era também vivaz, alegre, “pra cima”, como se diz hoje. É com essa imagem que termino esta crônica, não sem antes fazer um convite a mim mesmo, ao meu interlocutor invisível e a quem possa passar adiante esta mensagem sempre atual: “Vamos libertar Anne Frank!”.

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