LITERATURA DO AP: Fernando Canto prepara romance sobre regime militar no Estado

Por JÚLIO MIRAGAIA
Fotos: ANDRÉ SILVA

O portal SelesNafes.com inicia, neste domingo (2), a série “Literatura do AP”. O objetivo é entrevistar escritores locais e dar visibilidade para suas obras, além de divulgar projetos em curso e as visões desses intelectuais sobre diferentes assuntos.

O primeiro entrevistado de Literatura do AP é Fernando Canto. O autor recebeu a equipe do portal em sua residência, com belos bougainvilles na entrada, no Bairro do Santa Rita, no último dia 24.

Em uma conversa marcada por nostalgia, emoção e também com bom humor, o escritor, que está com 64 anos de idade, também falou um pouco sobre o plano de fundo de seu primeiro romance, ainda não intitulado: o regime militar no Estado do Amapá.

Confira:

Quando começou a escrever? E como avalia hoje sua relação com a literatura?

Comecei escrevendo pequenos textos, para fazer música. Comecei fazendo composições, tenho muitas músicas gravadas, faço parte de um grupo chamado Grupo Pilão e esse meu contato com literatura antes era apenas como leitor. Principalmente pelo fato de que a minha mãe era professora e me ensinou a ler. Desde almanaque do Biotônico Fontoura (risos) à histórias em quadrinhos. E frequentava a biblioteca. Ainda garoto, o primeiro livro que li que não deu para parar mais foi o Dom Quixote de La Mancha. Foi fantástico, Até hoje tenho ele ilustrado.

O que é poesia para Fernando Canto?

Posso verificar apenas como um gênero onde você depõe a sua alma nos sentidos da vida, em busca de realidades e irrealidades que você está absorvendo. Todo mundo é um poeta dentro de si, só às vezes não sabe expressar da forma poética aquela situação propensa ou densa ou absurda que pode lhe parecer para as pessoas através da sua escrita. Em tudo há poesia, depende da forma como você interpreta o mundo.

Existe uma literatura amapaense? Como é possível descrevê-la? É possível fazer isso? E em uma perspectiva amazônica?

Existe sim, uma cultura amazônica e amapaense. Mas você não pode também dizer com muita categoria. Porque a literatura é como arte, que é universal. Não posso dizer, por exemplo, que o Chico Buarque faz uma música carioca, pelo contrário. Ou não posso dizer que o Osmar Junior faz uma música amapaense. Faz uma música e essa música se universaliza, a medida que ela é divulgada. Mas eu acredito no seguinte, é que, nós, agora é que estamos tendo uma consciência. Apesar de alguns abnegados professores da universidade, por exemplo, que vem trabalhando a produção literária local e fazendo uma espécie de analogia com outras categorias e gêneros literários. E isso é fundamental pra que a gente possa compreender o que nós mesmos produzimos aqui dentro do Amapá e da Amazônia e essa importância que nós temos também. Porque, afinal de contas, talentos existem em todo o lugar.

Como anda, na sua avaliação, a relação de reconhecimento da sociedade amapaense e brasileira com o trabalho desse tipo intelectual, o produtor literário?

Acho que isso já está se tornando não algo rotineiro, mas está havendo valorização. Principalmente, nos setores em que perpassa o processo educacional e que exige com que as pessoas conheçam, com certa profundidade, a própria identidade local. E isso se dá através de promoções que são significativas dentro das escolas, levando o escritor ao local, a bibliotecas públicas, fazendo palestras. Da mesma forma que ocorre em todos os lugares, como na maioria dos povos mais civilizados que tem o entendimento que a literatura é uma arte que retrata geralmente o valor dos homens na sociedade, não só o mundo interior.

Grupo Pilão – Foto: Blog Porta Retrato.

Você também tem uma carreira musical, sobretudo com o Grupo Pilão. Pode contar um pouco dessa trajetória?

Nosso grupo surgiu em 1975, em nossa participação em um festival de música usando um pilão como instrumento musical, e por isso o nome, na música “Geofobia”. Produzimos três CDs. O objetivo nosso na verdade era valorizar o que nós tínhamos de música local, como marabaixo, batuque e, durante o processo de gravação desses CDs, de pesquisa, todos os membros do grupo pesquisaram e correram atrás, fizemos uma espécie de mapeamento cultural musical na época do Território Federal do Amapá. E fomos praticamente o segundo grupo a se interessar por isso, o primeiro eu participei de um disco chamado “Marabaixo”, com três músicas de minha autoria. Era adolescente, mas foi significativo. No início do Grupo Pilão eu tinha 21 anos, mais ou menos. Chegamos a gravar música de trabalho indígenas, de Oiapoque.

Essa, canção em um idioma indígena, “Moka lê Maiuhi Alê Zilê, Alê Kokola”. Sobre o que fala e qual a inspiração?

Fala sobre o coqueiro em cima da fonte. É uma música de trabalho; quer dizer atrás do coqueiro. É um patuá bem interessante, patuá é quando uma língua se mistura com a outra, aí no caso tem francês, crioulo misturado com indígena. Isso se dá, normalmente, em zona de fronteira.

E além de você, como é o processo de composição no Grupo Pilão?

Olha, como é autoral, na realidade a gente vem trabalhando muitas musicas de autores locais. No caso, tenho o maior número de músicas gravadas no grupo, mas tem também um poeta chamado Silvio Leopoldo, era músico, compositor. Já gravamos algumas músicas dele. Tem o Bi Trindade, que infelizmente há muito tempo já partiu para outra dimensão e deixou um vazio profundo na cultura amapaense,… (silêncio). Porque além de tudo, ele é um cara que começou no teatro, depois passou para a música, tem músicas autorais, tem um disco gravado e pelo fato dele ser assim, uma espécie de… Bom, dentro do nosso grupo ele era um cara muito bacana, era o melhor amigo que já tive e, além de tudo ele falava francês, era professor de francês, e eu adoro falar dele porque ele era um cara que assim, que na sua negritude, ele fez tanta coisa interessante e deixou que muita gente se interessasse pelo trabalho dele. Era sobrinho do mestre Oscar Santos, uma prima dele, chamada Lúcia Uchôa, professora de música na Universidade Federal do Pará, foi diretora da Escola de Música e Teatro, fez um trabalho bem interessante. Bi Trindade tem uma obra esparsa, gravou junto com o Manoel Bispo e o Tadeu Magalhães. Tem outro (disco) que ele deixou que não ficou pronto.

E como anda a produção do grupo?

Estamos produzindo sim. Pretendemos fazer, entre janeiro e fevereiro, uma espécie de recital com músicas de outros compositores locais, como Nonato Leal, que apesar de toda sua atuação dentro do Amapá como grande instrumentista e compositor, só o Manoel Sobral gravou músicas dele, além dele próprio. E ele deixou um legado muito grande, juntamente com um poeta que era meu amigo, chamado Isnard Lima. Ganharam festivais de música, tem muita coisa interessante. Com a participação de outras pessoas também. Mas o grupo tem se apresentado sempre e tem uma grande produção a ser apresentada ao público, nova.

Já fez crítica literária?

Olha, eu já escrevi um pouco a respeito, mas eu prefiro escrever mais sobre música do que sobre literatura, dos outros (risos). Porque as pessoas tem mania, assim, de não perceber que a sua literatura não é a melhor do mundo. O escritor é muito vaidoso, aliás quase todo artista. Às vezes, se toca em uma coisa tênue, mas que pra ele tem uma profundidade muito grande. Eu não sou crítico, mas eu gosto de escrever a respeito. Agora, escrevi sobre o último trabalho da Lulih Rojanski. E esse trabalho dela é uma coisa excelente. Uma coisa excepcional mesmo, um trabalho muito bom, muito bom. E ela já vem fazendo isso há um tempo.

Quais os prêmios literários mais importantes? E musicais?

Faz mais de 20 anos que deixei de participar de concurso. O último que participei foi do Primeiro Concurso de Contos das Universidades do Norte. Eu ganhei o primeiro lugar. Estava morando em Belém. O conto é “O Bálsamo”. Depois, foi publicado um livro chamado “O bálsamo e outros contos”, e foi muito importante pra mim, abriu portas para editora e essas coisas.

Concurso literário ainda é uma forma importante de descobrir novos talentos?

Existe uma multiplicidade de autores aparecendo muito bons e o concurso é uma forma de descobrir talentos novos, novas tendências. Não apenas pro mercado, mas de produção literária. Mas eu acredito que isso não só descobre novos talentos, como consolida aqueles que já vem batalhando há algum tempo e não são premiados e a vida, é assim, vai levando. A partir do momento em que o mercado, que é uma espécie de antena do que vem ocorrendo em termo literário, quando eles julgam, é muito natural que esses novos talentos vão surgindo. Também existe certo desinteresse de outros autores que já participaram a se submeter novamente. Em concurso, o escritor coloca à prova a sua capacidade criadora e ele é julgado como nós somos julgados toda hora, até por nós mesmos. Então acho fundamental esses concursos, não só para talentos literários, mas musicais. Eu trabalho com isso há muitos anos e já ganhei vários festivais de música e de literatura também.

Quais são os artistas favoritos de Fernando Canto? Entre poetas, músicos, outros segmentos.

Em termos locais, logo da implantação do Território do Amapá, até 1960 e tanto, tinha uma turma de poetas que passaram por aqui que eu considero como a geração feliz no trabalho que fizeram. Que foi “Os Modernos Poetas do Amapá”. No caso, o Álvaro da Cunha, Alcir Araújo, Ivo Torres, que ainda está vivo, mora no Rio de Janeiro. Autores muito interessantes, que foram importantes no próprio legado que deixaram. Esse legado importante para a formação de autores, notadamente influenciados, como Isnard Lima, Silvio Leopoldo, José Edson, Rai Cunha. Alguns estão fora do Amapá, como Jorge Ferreira, Josiane Rita Arruda. Enfim, pessoas que permanecem em ação aqui. Hoje vejo a Lulih como um grande expoente, o Marvin na poesia, a Jaci Rocha na poesia. Temos outros consolidados, como a Alcinea, pessoas que têm a ampla liberdade de escrever, e que foram podados em sua arte no regime militar.

Como foi isso, a censura no Amapá?

Na minha tese de doutorado, coloco um capítulo sobre a questão da ditadura aqui, 1964 a 1973. No período de 1973, houve uma espécie de “fake político”. Criaram a chamado “Operação Engasga-engasga”, alegando na cidade uma onda de terrorismo. E isso fez com que depois criassem a Polícia Militar no Amapá. E muitos dos meus colegas, jornalistas e poetas, foram presos, por causa das suas opiniões, por causa das suas visões, por causa da sua arte também. Foram presos na Fortaleza de São José e torturados e depois mandados para Belém. Se você tiver acesso ao relatório da Comissão da Verdade, eu tenho um depoimento sobre isso lá alguns anos atrás. Cheguei até a ser recolhido a um quartel do Exército. Fazia parte de um movimento religioso lá do bairro do Laguinho. E na ditadura tinha disso, de você ser preso injustamente sem saber o porquê. Os jornais da época dizem muito isso, o próprio jornal Novo Amapá, Província do Pará, dizia muito a respeito disso. Foi importante porque houve uma maneira de colaborar para ter um enfrentamento ideológico. Estudei sociologia por causa disso, e porque a gente precisava trazer isso à tona, que aconteceu aqui, pra nunca mais se repetir. Tem gente que fica tão invisível que perde a própria memória, nenhuma identidade subiste sem memória. Tudo existe apoiado em memória, então é preciso entendimento maior do nosso histórico para que não fique no esquecimento e nesse estranhamento entre memória e esquecimento. Porque, às vezes, você não consegue entender o que existe por trás da sua própria identidade.

Como anda sua produção? Há projetos em desenvolvimento?

Tenho um livro de contos publicado em 2017, foi um ano profícuo. Lancei um livro sobre Marabaixo, um livro mais didático. Publiquei um livro de contos chamado Mama Guga”, pela editora Paka-tatu. Foi lançado, inclusive, na Feira Pan Amazônica, lá em Belém e a minha tese de doutorado, chamada “Literatura das Pedras: Fortaleza de são José de Macapá como Lócus das Identidades Amapaenses”. A tese foi publicada pela Capes, Universidade Federal do Ceará, Universidade Federal do Amapá. E agora tenho muitas coisas em mente. Alguns trabalhos de cunho também poético. Não estou mais pretendendo publicar poesia em livro, só nas redes sociais (risos). Estou escrevendo um romance também. Ainda não tem nome, é ficção, é baseado inclusive no próprio período do regime militar.

Qual mensagem o escritor deixa para as novas gerações que pretendem produzir literatura no Amapá?

Eu escrevo todo dia e escrevo, sobretudo, para me desintoxicar das coisas ruins da vida, do próprio pessimismo que às vezes alcança nossa geração. Até vem com um estalar no olho, com um sorriso cínico na raiva do adolescente. É preciso que a gente tenha em mente que não é um buscar um otimismo através da palavra. Porque a palavra é a coisa mais verdadeira que existe. Faz com que a gente se mova. Mas a palavra escrita, ela é fundamental, porque ela deixa muitos resíduos e é preciso escrever todo dia. Mas é preciso, sobretudo, ler para poder também ter o entendimento do mundo e sua própria razão de estar aqui nesse planeta. Então, é preciso ler bastante, conhecer a língua pátria e não se prender apenas aos verbetes das redes sociais, que às vezes viram até verdadeiros. Mas eu acho a linguagem como qualquer outro tipo de atividade humana, como a biológica. Muda todo dia, tudo se transforma como dizia Lavoisier. Então é preciso que a gente tenha esse entendimento, que a literatura nos faz bem a partir do momento que a gente tenha também o objetivo de dar completude naquilo que nos somos errados.

Assista:

Perfil do escritor

Nascido em 1954, na cidade de Óbidos, no Pará, Fernando Pimentel Canto é casado, tem cinco filhos (três homens e duas mulheres) e cinco netos. Veio para Macapá ainda garoto, com a família, em 1962.

Estudou o primário na Escola Barão do Rio Branco, depois no Ginásio de Macapá, no Ieta e no Colégio Comercial do Amapá. Depois, mudou-se para Belém, onde cursou sociologia na Universidade Federal do Amapá (UFPA).

Tem 16 livros publicados, de poemas, contos e crônicas, e também publicações científicas, como dissertação de mestrado e tese de doutorado. Atualmente, trabalha na Universidade Federal do Amapá (Unifap).

No ano de 2017, recebeu o título de “Cidadão Amapaense”, da Assembleia Legislativa do Estado. Membro da Academia Amapaense de Letras (AAL), é também jornalista e compositor, tendo como centro de seu trabalho musical o histórico Grupo Pilão.

*Agradecimento ao jornalista Elton Tavares, pela articulação para a entrevista.

Fonte: SelesNafes.Com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *