Lúcio Flávio Pinto e Mestre Sacaca serão homenageados pela Unifap

Lúcio Flávio Pinto retratado por Paulo Santos (Acervo H)

Por Izabel Santos

Lúcio Flávio Pinto, um dos jornalistas mais prestigiados do Brasil e colaborador da agência Amazônia Real, receberá o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Amapá (Unifap). A honraria é um reconhecimento do meio acadêmico ao também sociólogo e pesquisador que há décadas dá voz aos povos tradicionais, seja denunciando os crimes ambientais, seja por seus estudos e pelo profundo conhecimento da região amazônica. Receberá a mesma homenagem, de maneira póstuma, Mestre Sacaca, como era conhecido Raimundo dos Santos Souza, um dos maiores conhecedores da medicina tradicional da Amazônia.

O combativo jornalista Lúcio Flávio Pinto nunca poupou as autoridades de críticas, o que lhe rendeu perseguições políticas e imbróglios judiciais desde a época da ditadura militar, nos anos 1960 e 1970. Ele segue no mesmo tom em suas colunas atuais publicadas pela Amazônia Real, onde escreve desde novembro de 2016. Em um momento em que o País flerta com o passado sombrio, no qual o governo se coloca contra a preservação da floresta amazônica e a favor do negacionismo da ciência, o título concedido se reveste de mais simbolismo. “Como foi espontâneo, significa que há ainda altivez e independência na comunidade universitária, apesar das ameaças e perseguições do poder central”, diz.

Esta é a primeira vez que a Unifap concede o título de Doutor Honoris Causa. A iniciativa faz parte das comemorações dos 30 anos da instituição, que é uma espécie de irmã acadêmica da Universidade Federal do Pará (UFPA), pois foi criada quando o Amapá ainda era um território federal ligado ao Pará. “Tudo está no seu tempo e chegou o momento de a universidade fazer concessões e honrarias”, comentou o secretário-geral do Conselho Superior Universitário da Unifap, Rafael Saldanha.

“Recebi com surpresa e alegria”, comentou Lúcio Flávio ao saber da notícia, sem deixar de cutucar uma desfeita passada. “Anos atrás, os professores Jean Hébette e Raul Navegantes propuseram ao conselho da Universidade Federal do Pará que me concedesse o título de notório saber em Amazônia. Um dos conselheiros foi contra e o título não saiu. De lá para cá, a comunidade acadêmica da UFPA me transformou numa bête noire“, revelou. Bête noire é uma expressão francesa que pode ser traduzida como “assombração”.

Com vasta experiência no chamado jornalismo tradicional, Lúcio Flávio sempre demonstrou apreço pelo jornalismo alternativo e ao longo da sua carreira contribuiu com publicações como os jornais Opinião, Movimento, Bandeira 3 e Informe Amazônico. O mais simbólico deles é Jornal Pessoal, publicado quinzenalmente em Belém, desde 1987. A publicação, escrita por ele e seu irmão, Luiz Pinto, não traz nenhum tipo de publicidade e incomoda muitos políticos e empresários da região. Ele mantém ainda a Agenda Amazônica.

Nascido em Santarém (PA), em 23 de setembro de 1949, Lúcio Flávio começou a trabalhar na área de comunicação muito cedo. Aos 15 anos, já apresentava um programa de rádio e, aos 16, foi repórter no jornal A Província do Pará, em Belém. Dois anos depois, mudou-se para o Sudeste, onde em 1973 se formou em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo (USP). Desde então, entre São Paulo e Belém, trabalhou em publicações como Correio da Manhã, Diário da Noite, Diário de São Paulo, Jornal da República, Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo, O Liberal, rádio BBC News, e revistas IstoÉ e Veja, entre outros.

Quando voltou à Amazônia, foi professor visitante do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, entre 1981 e 1982, e do curso de Jornalismo no Departamento de Comunicação Social da UFPA. Nos dois anos seguintes, foi professor visitante do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Flórida em Gainesville, nos Estados Unidos. Já publicou 21 livros sobre meio ambiente e Amazônia, entre os quais se destacam Amazônia do Rastro do Saque, Jari: toda a verdade sobre o Projeto de Ludwig e Carajás, o ataque ao Coração da Amazônia.

“Ainda tenho muitos projetos em andamento, que podem resultar em novos livros. Um desses projetos é publicar mais dois volumes sobre a [Revolta da] Cabanagem, dando continuidade ao primeiro, que revelou os 1.953 presos pelas forças militares do império”, contou à Amazônia Real. O jornalista é o único representante do Brasil na lista dos 100 mais importantes da ONG Repórteres sem Fronteiras.

Mestre Sacaca — Foto do Blog Porta Retrato do Amapá

Doutor da medicina tradicional da Amazônia

Nascido em 21 de agosto de 1926, em Macapá, o futuro Doutor Honoris Causa Mestre Sacaca, homenageado com Lúcio Flávio Pinto, ficou internacionalmente conhecido por usar conhecimentos tradicionais sobre plantas medicinais para tratar males e curar doenças. Em novembro de 2018, foi condecorado pela Divine Academie Française des Arts Lettres et Culture com o título Póstumo e Honorífico, uma das mais altas insígnias da instituição pelos relevantes serviços prestados à Humanidade.

O oitavo dos 14 filhos de Mestre Sacaca o advogado e suboficial da Marinha aposentado José Antônio da Silva Sousa, conversou com a reportagem da Amazônia Real por telefone e faz questão de destacar que o pai “é negro” e que, para a família, ele não morreu, “pois continua vivo através do legado que vai além do conhecimento sobre plantas, pelo exemplo de humanidade, doação e respeito ao próximo”. “Para mim meu pai não morreu, ele continua vivo no nosso coração”, diz José.

José conta que, até hoje, mais de 20 anos após a morte do pai, pessoas que ele não conhece o reconhecem como filho do Mestre Sacaca. “É um tipo de fardo muito positivo esse que carregamos. Tenho muito orgulho do meu pai e procuro sempre respeitar e tratar as pessoas bem pela memória dele. Ficamos muito felizes com essa comenda. Soube pelo reitor da Unifap, que é biólogo, e me chamou a universidade para me dar a notícia”, revela.

“Nossa família recebeu essa notícia da outorga do título de Doutor Honoris Causa com muita satisfação e alegria. Essa homenagem nos faz crer que Sacaca ainda é vivo. O legado, é a presença dele e o faz fortemente vivo. O que ele produziu para a humanidade através das plantas foi, principalmente, para ajudar as pessoas em uma época em que era difícil o acesso a uma farmácia. Então ele fazia os seus unguentos, as suas garrafadas, chás e tudo o mais para ajudar essas pessoas”, diz emocionado José.

Mestre Sacaca também era envolvido com o cenário cultural do Amapá. “Ele foi o primeiro rei Momo de Macapá. Além disso, inspirou várias pessoas no estado como cantores e escritores. Para a nossa felicidade, em 2017, o Boi Garantido de Parintins fez uma homenagem a ele como o ‘Caboco Sacaca’, e venceu o Festival de Parintins naquele ano”, diz entre risos e afirmando que torce para o boi vermelho.

José, que é presidente da Comissão de Cultura OAB-AP, também conta que a família “enxerga o título como um grande agradecimento da sociedade amapaense, da Amazônia e do Brasil como um todo.”. “Perguntei a Madalena, minha mãe, que tem 88 anos, ‘mamãe, e esse título? O que a gente faz se o papai já morreu? A quem vamos dedicar esse título?’ e ela respondeu ‘às pessoas que de alguma forma ajudaram o seu pai nessa caminhada’”.

Ele também conta que no dia do enterro do pai, a família teve dificuldade de chegar perto do caixão por causa da quantidade de pessoas que queriam se despedir do curador. “Aquilo foi uma demonstração de carinho do povo do Amapá”, falou com a voz embargada.

A notoriedade do curador também motivou a criação do Museu Mestre Sacaca, na capital do estado amapaense, que abriga mostras sobre o modo de vida de comunidades tradicionais da Amazônia no Amapá e pesquisas sobre a produção de medicamentos fitoterápicos. “O conhecimento do Mestre Sacaca veio da convivência com ribeirinhos, de pessoas que vivem na floresta e que vivem do que a floresta dá, como os peixes, os saberes tradicionais e o modo de vida tradicional. São pessoas que usam os rios como um organismo vivo. A mata ao redor do rio é a fonte de soluções”, destaca o secretário-geral do conselho universitário.

Mestre Sacaca popularizou os conhecimentos sobre a medicina da floresta amazônica na década de 1990 como radialista da Rádio Difusora de Macapá no programa “A Hora do Campo”. Ele também publicou três livros sobre o assunto. Ele foi casado com a primeira miss Amapá, Madalena Souza, com quem teve 14 filhos, e morreu em 1999.

O título de Doutor Honoris Causa é concedido por universidades a personalidades que tenham se distinguido pelo saber e pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras ou do melhor entendimento entre os povos.

Lúcio Flávio Pinto em seu escritório, em Belém (Foto: Paulo Santos/Acervo H)

A sugestão dos nomes de Lúcio Flávio Pinto e de Mestre Sacaca veio do colegiado do programa de pós-graduação em Biodiversidade Tropical da Unifap, que foi encaminhado à reitoria e então ao conselho universitário. Uma comissão, composta pelos professores Luiz Carlos Tavares, presidente da comissão e docente titular da Unifap, Edna Castro, do Núcleo de Altos Estudos da Amazônia da UFPA, e José Maria Cardoso da Silva, da Universidade de Miami, entregará até outubro um parecer sobre a concessão dos títulos. Esse texto trará toda a trajetória, a contribuição e a relevância dos trabalhos das personalidades. A previsão da Unifap é que a concessão pública de outorga do título de Doutor Honoris Causa aos dois homenageados ocorra até dezembro.

Segundo Rafael Saldanha, paraense e técnico em assuntos educacionais, a Unifap não definiu se a cerimônia será realizada online, ainda neste ano, ou presencial, já em 2021, por conta da pandemia de Covid-19. “Fazer a cerimônia por vídeo não teria a mesma grandiosidade, o mesmo impacto de ser presencialmente”, afirma. Ele destaca que no caso do Mestre Sacaca, um representante receberá o título. Mas no caso de Lúcio Flávio membros da comunidade amapaense gostariam de felicitá-lo pessoalmente. “Ele tem amigos aqui, pessoas que trabalharam com ele, que deram aula com ele. Acho que, neste momento, todo mundo gostaria de estar junto, de abraçá-lo, parabenizá-lo.”

Estátua do Mestre Sacaca em Macapá (Foto: Governo do Amapá)

O jornalista Lúcio Flávio, na conversa com a reportagem da Amazônia Real, não deixa de fazer o que sempre fez em suas andanças amazônicas: compartilhar conhecimento. “O grande desafio do jornalismo na Amazônia é aproximar o tempo da realidade do tempo da percepção. Há um fosso imenso que separa os acontecimentos do dia a dia do que eles significam, do entrelaçamento que têm com fatos quase invisíveis, distantes, desconhecidos, na teia de conexões nacionais e internacionais da Amazônia. Com as antenas ligadas no cotidiano local e no noticiário internacional, os jornalistas poderão tentar evitar esse gap, atualizando o habitante da Amazônia e lhe dando condições de escrever sua própria história, ao invés de ser apenas reprodutor da informação que baixa do poder e ser manipulado”, ensina.

Fonte: Amazônia Real.

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