Mais rabugices do redatorsauro – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Me rendo ao fato de que estou mesmo rabugento. É a evidência de já ser um homem velho. É uma juventude tola que vejo dando as cartas. Mas para que eu não fique massacrando meus queridos leitores com esse papo chato da propaganda que se faz hoje, invento um personagem e coloco nas palavras dele as minhas experiências neste mundo modernoso e hostil.

O personagem é o redatorsauro, último redator publicitário da face da Terra. Parente do pterodactilógrafo, espécie já extinta, o redatorsauro é um dinossauro da propaganda, old school, velha guarda, das antigas mesmo. Um viajante do tempo, que dá seus últimos suspiros no planeta da propaganda, respirando graças à sua roupa de astronauta provida de balão de oxigênio, que o mantém livre de respirar e ser contaminado pelo ar que os atuais publicitários respiram.

O redatorsauro trabalha numa agência de publicidade da nova era e sua função é fazer textos que serão analisados por algum especialista que não tem a mínima condição de analisar o que quer que seja. Depois, a maior parte desses textos será achincalhada, desprezada e devidamente depositada na lata de lixo.

Parando para tomar um cafezinho, hábito tão antigo que em algumas agências já foi abolido, o nosso personagem ouve o seguinte diálogo entre dois publicitários da nova safra:

– A tendência da comunicação moderna, feita para circular na internet, é se tornar cada vez mais visual.

– Pois é. O espaço do texto, que serve para trazer a mensagem, tem que ser reduzido ao máximo. As pessoas que utilizam as redes sociais querem agilidade, não têm tempo para ler textos com mais de cinco palavras.

Sempre que o redatorsauro ouve algo assim, um sinal de perigo começa a pulsar em seu cérebro. Ao publicitário moderno que esteja lendo esta crônica (duvido que leiam alguma coisa) convém esclarecer: cérebro é um instrumento muito utilizado na propaganda de outrora, hoje em desuso. Aí, o redatorsauro passa a pensar assim:

“Pera aí! Esses caras estão falando, sem a menor cerimônia, daquilo que é o meu ganha-pão, a minha missão dentro de uma agência de publicidade, que é criar textos. Para mim, a equação sempre foi muito clara: o layout é a forma, o texto é o conteúdo. A mensagem é passada através desses dois elementos: a forma e o conteúdo. E eu cuido do conteúdo, que é o texto. Certo?

Errado. Segundo os dois garotões ao lado, a publicidade está caminhando para que só exista a forma, dane-se o conteúdo. É certo que a maioria das pessoas não se preocupa mesmo com conteúdo, já era assim no passado. Essas pessoas citadas pelos dois publicitários são apenas forma, embalagem, mas o redatorsauro não consegue admitir que a totalidade das pessoas será somente forma num futuro não muito distante. Ele não consegue imaginar este mundo povoado exclusivamente por pessoas frívolas, superficiais, que se acham dinâmicas quando estão sendo apenas apressadas e não têm tempo para ler duas linhas de texto.

A ideia de ser um bicho em extinção vai e volta na cabeça conturbada do redatorsauro. É certo que, se a tendência se confirmar, estará decretado o fim da sua carreira, que já vem se arrastando há algum tempo.

Ele se queixa para mim e eu o animo, dizendo que vamos reagir, combater essa onda de que só o que importa é o visual. Que ainda há espaço para o texto, como aqui neste espaço, onde podemos escrever com a certeza de que somos lidos.

Só temos que cuidar para não ficar repetindo assunto. Na próxima crônica, prometemos mudar de tema, tá, pessoal? Não nos abandonem.

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