A MENINA QUE VOMITAVA PEIXES (Conto de Fernando Canto)

Foto: André Lessa/AE

Por Fernando Canto

A menina lavava a louça no jirau estendido para o fundo da casa de madeira. No quintal havia um lago de águas represadas que no tempo invernoso transbordava, formando um córrego que por sua vez desaguava no rio.

Barrigudinha, como quase todas as crianças ribeirinhas amazônicas, ela ajudava a mãe depois do almoço e guardava no armário de madeira branca os parcos talheres e vasilhas usados nas refeições familiares.Navio1max

Quando seus parentes dormiam à tarde, Kelly do Socorro – esse era o nome dela – se dirigia ao pequeno porto da frente da casa para olhar os navios transportadores de minérios parados ao longo do rio, à espera de carregamento. Ali ela se imaginava viajando num daqueles monstros de ferros que povoavam a paisagem e alimentavam seus sonhos. Acenava, também, para os pescadores passantes em seus barquinhos motorizados movidos à gasolina, pois as velhas montarias a remo agora davam lugar às rabetas. Mas até o barulho delas lhe encantava.

A mãedownload quebrava o encanto, chamando-a. Era hora de preparar o jantar, antes que os carapanãs que costumavam aparecer subitamente em nuvens ao anoitecer enchessem a casa. O pai chegaria logo com cachos de açaí para serem debulhados e preparados no acompanhamento da refeição do dia seguinte.

Kelly chorava. – Dói muito minha barriga, mãe. Não aguento mais isso todo dia.

A mãe retrucava. – Tu tens que fazer isso, criatura. É da tua natureza. E fazia massagem na barriga, no peito e na boca da menina com azeite de copaíba.download

Talvez por causa do amargor desse óleo vegetal ela não resistia e expelia pela boca dezenas de peixes sobre o jirau. A mãe escolhia os maiores, descamava-os com rapidez e os fritava para o jantar. Os restantes eram jogados ainda vivos no pequeno igarapé atrás da casa. Eram de várias espécies e se reproduziam e cresciam rapidamente, formando enormes cardumes, para a satisfação dos pescadores da área.

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Numa deRabeta navega por entre manguezal na ilha de Maiandeua (Algodoal), no Pará - Por Tito Garcezssas tardes de sonhos acariciados no olhar para o horizonte, a infeliz Kelly do Socorro, já mocinha e mais sonhadora ainda, estava sentada na ponta do trapiche quando ouviu o som de uma rabeta se aproximando. Levantou-se e viu um rapaz lhe acenando com um chapéu, convidando-a para uma volta nas águas antes que a tarde caísse. Era verão e certamente o espetáculo do crepúsculo lhe traria mais ardor e emoção. Pulou com destreza para dentro da embarcação e saiu com o desconhecido sob a explosão de um velho sol que se despedaçava em raios coloridos.spc

Desde esse dia ela não mais praticou o que a sua mãe lhe ordenava, exceto quando deu à luz, pela boca, a um menino de pele prateada e muito brilhosa, fato que levou a parteira do lugar a deixar a profissão e a vagar com os olhos fixos ao longo da ribanceira todos os dias, até desaparecer, dizem, comida por jacaré.

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Desse temdownload (2)po em diante os intervalos das marés na foz daquele rio são mais prolongados e não há mais abundância de peixes como outrora. Os pescadores se tornaram homens desesperançados, e a maioria vendeu suas terras e migrou para a cidade.

Kelly do Socorro agora amamenta o estranho filho na ponta do tr11ago2013---mulheres-conversam-em-trapiches-de-madeira-em-comunidade-ribeirinha-sob-pouca-ou-quase-nenhuma-iluminacao-1376087854937_956x500apiche de sua casa. Está sempre triste e cantarolando músicas que ouve no velho rádio de pilha do pai. Vez por outra, de forma escondida, quando o vento sopra forte e borbulhas emergem do rio, ela olha para os lados e, segura que não vem ninguém, abre a boca e joga n’água alguns peixinhos, que fazem a alegria e a algazarra dos bichos do fundo. O menino também solta aquele riso incontrolável de criança tenra.fabio-2

Ao pôr-do-sol ela se levanta com o filho e, como se esperasse alguém, olha por um bom tempo os navios cargueiros que começam a acender suas luzes lá longe. Então ela caminha em direção a casa pela estiva de madeira velha do pequeno porto, quando subitamente uma nuvem de carapanãs a arrebata acima das copas dos açaizeiros, e ela vê – imersa na felicidade – enfim, o moço sorridente que lhe acena com o chapéu, deslizando sobre as águas em sua veloz e barulhenta rabeta.

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