MEU COMPADRE ZECA – Por Humberto Moreira – @hmoreiraap

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Cumprida a missão fica um vazio que só o tempo vai remediar. Sebastião Mont’Alverne virou lembrança. Levou consigo inconfundíveis acordes dissonantes.

Foi no Clube do Guri. Era domingo e minha mãe, mandou-me à Difusora. Foi lá que vi pela primeira vez o Cabuquinho e seu violão. Junto com Nonato Leal, Walter Banhos e Deusdeth Vale ele compunha o casting da pioneira.

Algum tempo depois eu já peruava os bailes da Piscina Territorial onde Sebastião tocava guitarra no conjunto “Os Cometas”. Fui surpreendido com o convite do baterista Walfredo, passando a integrar o grupo em 1968. Mas a essa altura Sebastião já tinha ido pra Belém.

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Foto: Arquivo pessoal de Floriano Lima.

Só depois que ele voltou pra Macapá fomos nos conhecer melhor. Soube então que para os íntimos ele era o Zeca exímio violonista, fã de Baden Powell cujas músicas executava com maestria. Zeca me escolheu para intérprete e caminhamos juntos por mais de trinta anos em shows, serestas, saraus e pescarias. Dificilmente não estávamos juntos aos finais de semana. Dividimos o gosto pela música popular a paixão pelo interior do Estado e um sem número de amigos comuns. De comum acordo com a Célia sua mulher, que integrou o conjunto Os Cometas com sua bela voz, batizamos o meu mais velho solidificando ainda mais a nossa amizade. Zeca reunia em torno de si amigos e familiares atraídos principalmente pelo som do seu violão. Eram figuras obrigatórias como: Meton Jucá, Léo Platon, Arimathéia Werneck e Ezequias Assis entre outros que também estão no andar de cima.

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Humberto, Walfredo e Zeca – Foto: Arquivo pessoal de Humberto Moreira

Eu e o Zeca tínhamos o gosto musical muito parecido. Só havia discordância no futebol. Como bom flamenguista ele não dispensava uma gozação quando o Botafogo tomava uma taca.

Os Cometas reapareceram e a batida inconfundível daquela guitarra estava presente. De repente a enfermidade. Zeca parou de tocar deixando os seus amigos preocupados. A recuperação não veio. A depressão abateu-se sobre o outrora virtuose do violão. Faz uma semana que nos vimos pela última vez. Sentado na sala da casa Zeca balbuciou ao me ver: “Meu cumpadre“. Fiz umas duas piadas tentando animá-lo, mas ele parecia distante como acontecia nos últimos tempos. Despedi-me dele, dei um abraço na minha comadre e saí segurando uma lágrima. Me pareceu que o fim estava perto.

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Nonato Leal, Brenda Melo, Zeca Mont’Alverne e Sebastião Tapajos – Foto: arquivo familiar de Verinha Leal.

O cabuquinho José Sebastião Miranda de Mont’Alverne que nasceu no dia de São José nos deixou no dia de São Tiago e fez a passagem na companhia de São Cristóvão. Foi tocar violão no céu. Aqui ficamos nós saudosos. Vá em paz meu compadre Zeca. E prepare o vinho para quando a gente se encontrar de novo.

Humberto Moreira
Jornalista e integrante de Os Cometas

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Fotos encontrada no blog do Fernando, o Canto da Amazônia.

*Conheci Sebastião Mont’Alverne em 1999. Claro que já o conhecia de fama, mas pessoalmente foi neste ano. Por mais de uma década, frequentei a casa dele, pois era muito amigo amigo do Gustavo (Guga), seu filho caçula. Com o tempo, eu e Guga nos distanciamos, mas cultivei o apreço pelo Zeca (e pela dona Célia), pois ele sempre me tratou muito bem, além de ser o grande cara que foi e sempre será.

Algumas vezes, o presenciei alegrando rodas de amigos, com seu violão mágico. Principalmente na casa do Fernando Canto.

Também ouvi muitas histórias de suas histórias e causos (sempre imitando os ribeirinhos que ele tanto gostava). Era hilário.

Quando o Caboquinho adoeceu, parou de sorrir, tocar e contar histórias. Ontem ele fez a passagem. Que seu jeito descontraído, afável e feliz seja exemplo para todos nós.

Faço minhas as palavras do cineasta e produtor cultural Thomé Azevedo: “O Sabá foi dedilhar melodias em outras esferas celestiais e ficaremos com as melhores lembranças”. Que o Sabá siga em paz. Mais uma vez, minhas sinceras condolências à família.

Elton Tavares

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