AS MULHERES-PEIXE (Conto de Fernando Canto)

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Conto de Fernando Canto

Os cachaceiros do bar da Loura Rainha podiam apostar com certeza que era mais uma mentira do Edmer. Falou pra quem estava ali que tinha comido uma mulher-peixe, só pra se gabar e se aproveitar de uma história que corria na área e era a razão do medo dos nossos novos vizinhos, que eram feios pra caralho e tinham chegado há pouco tempo sabe lá de onde. – Porra, falei. Eu também namorei, quer dizer, cheguei a morar com uma delas lá nas brenhas do Igarapé do Salamagonha, no tempo que ainda tinha ouro aqui no garimpo do Lourenço. Pra quê… O Edmer, que era um tremendo filho de uma puta avançou em cima de mim com uma faca de sapateiro, mas ele estava porre e não me furou porque pulei de lado e lhe acertei uma garrafada no meio da testa. O homem caiu no assoalho com a garapa descendo por todo o corpo. Foi pá, merda. O Edmer era uma bosta e morreu porque achava que eu tinha comido a mulher-peixe dele.

-Flamenguista safado, eu dizia muito puto sobre o gordão assassinado. Ainda bem que as testemunhas foram na delegacia e confirmaram ao policial de plantão que meu reflexo salvou minha vida e que agi em legítima defesa. Passei a noite inteira esperando o bacharel.

Quando o delegado chegou pra pegar o meu depoimento foi logo perguntando quem eram essas mulheres-peixe que tanto davam medo nos novos moradores do assentamento, uns colonos feios pra caralho, e sobre a causa da briga com o gordo Edmer. Disse o que se passou no bar e que eu não sabia nada das mulheres, que apenas tinha mentido pra acabar com a gabolice do cara. Fui solto, mas ele pediu que eu não saísse da área porque o caso era da Polícia Federal, já que o merda do Edmer era funcionário do Incra. Ele não se conformou e me seguiu até o meu sítio. Depois eu soube que ele acampou por lá por perto com uns tiras atrás de ouro. A verdade é que eu tinha achado um veio numa gruta e havia escondido de todo mundo que ainda tinha ouro por lá. Na gruta havia um lago de água verde, verde, verdinha. Não fazia muito tempo que eu tinha descoberto essa gruta e o lago e visto as mulheres-peixe se banhando. Tinham a cor dourada e eram largas. Suas barbatanas eram vermelhas, umas gracinhas. Nem de longe pareciam com as sereias que eu já tinha visto em revistas. Brincavam com as águas e sorriram quando me viram. Me chamaram pra bem perto delas e aí eu pude conhecer o verdadeiro valor do prazer sexual com aquelas mulheres, ainda que não fossem humanas. Eu me acostumei com elas e elas comigo.

O Edmer estava fiscalizando o assentamento dos colonos. Ele também descobriu a gruta depois que a caminhonete dele pregou perto do torrão do Tracajatuba, na estrada que levava ao meu terreno. E parece que ele chegou a dar umazinha por lá porque elas me sereia3falaram por alto dele. E foi justamente no bar da Loura Rainha, onde eu tinha chegado pra tomar uma caninha que ele achou de contar vantagem. Eu confesso que não queria que ninguém soubesse ainda mais depois que elas me indicaram onde estava o ouro.

O delegado me flagrou com as mulheres-peixe quando a gente estava bacana, tomando um Campari no meio do lago. Ele já sabia do ouro e me deu voz de prisão. Ao verem os tiras as mulheres douradas foram tomadas de um pavor que eu jamais vira. Pareciam loucas, cantando e dançando e mergulhando. Assoviavam uma melodia tão forte que se eu não tivesse corrido pra fora da gruta meus tímpanos estourariam, assim como aconteceu com os policiais, que desmaiaram e morreram afogados. Elas salvaram minha vida, pois a ambição do delegado e seus subordinados não tinha limite. Onde havia ouro eles iam lá confiscar.

Não sei como alguns agricultores ouviram os gritos de tão longe. Chegaram ao local armados de facões, mas se tremiam de medo. Certamente viram os vultos das mulheres-peixe no fundo da gruta. O boato das suas existências já rolava pela vila do Lourenço, imagina agora com a morte dos tiras e o testemunho dos colonos feios.

Quando os policiais federais chegaram pra me prender eu já estava muito longe com o meu ouro. Larguei tudo: o sítio, os animais, os empregados, a mulher e os filhos. Comprei um carro usado e sumi no trecho pra capital. Agora que acabou a porra do ouro e do dinheiro bate uma saudade daquelas mulheres lindas que nunca mais vou voltar a ver. Elas devem ter morrido com a presença de tanto garimpeiro feio no lugar que com certeza poluíram a gruta e seu lago verdinho.

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