Muro branco – Conto de Ronaldo Rodrigues

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Conto de Ronaldo Rodrigues

“Ninguém vai me proibir de escrever uma mensagem neste muro”. Foi o que pensou, vendo aquele muro de brancura imaculada. O muro chamava mais atenção porque era uma ilha em meio a um oceano de muros pichados, desenhados, pintados, enlameados, carcomidos, vandalizados.

Ele nunca havia escrito ou desenhado nada em muro algum da cidade. Nunca tinha passado isso pela sua cabeça. Nem pensava em encontrar um muro como aquele, virgem de qualquer intervenção.

Ele sempre tivera um olhar de repulsa para a maioria dos muros pintados. Via aquelas figuras e letras apenas como simples vandalismo, como a maioria das pessoas via. Mas ficava maravilhado quando, raramente, se deparava com uma manifestação genuína de arte.

Tudo isso, passando vertiginosamente pela sua cabeça, o instigou a deixar sua impressão, sua expressão, sua marca naquele muro. Claro que, devido ao seu pouco conhecimento do universo dos grafiteiros, não trazia nenhum equipamento apropriado. Ele só intuía que precisava ser rápido, pois ouvia falar de alguns casos de perseguição policial e mesmo os grafiteiros não deixariam aquele muro ficar incólume por muito tempo.

Procurou na sua bolsa algo com o que escrever, mas nada do que encontrou, lápis e canetas, iria se destacar naquela superfície. Precisava de algo bem maior e encontrou o ideal para aquela missão: uma lata de spray jogada no chão, que ele não tinha notado até o momento em que começou a bater aquela inusitada vontade de grafitar.

Achou meio estranho aquela lata aparecer ali, mas não ligou para o fato. Pegou a lata e partiu para o muro branco, certo de que aconteceriam duas coisas inéditas: ele faria a sua primeira grafitagem e aquele muro receberia a primeira carga de spray de sua existência.

Quando ele apertou o pino que disparava a tinta, aconteceu o inverso do que esperava. A tinta que saía do spray, que também era branca, não atingia o muro e, sim, o nosso grafiteiro de primeira viagem. No momento seguinte, o muro passou a se movimentar em torno do grafiteiro, envolvendo-o numa dança louca, deixando-o entre maravilhado e aterrorizado, com seu corpo se misturando ao cimento e aos tijolos do muro e se diluindo em meio àquela brancura.

Em pouco tempo, depois que o grafiteiro despareceu, o muro assumiu sua posição inicial e continuou ali, esperando mais alguém disposto a devassar sua impenetrável brancura.

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