Niver…Niver…Ponto…6.0 – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Alípio faz aniversário.

Alípio andou junto comigo pelas ruas arborizadas do bairro do Laguinho, quase todos os dias certa época, vindo da Escola Normal de Macapá, hoje IETA, pela Avenida FAB e outras que não me lembro.

Ainda na época do Rum Montilla e da promoção.

Beba Rum Montilla e junte os rótulos, seja sorteado, e viaje para a Copa do Mundo de Futebol no Chile- 62.

Separávamos na esquina do Bar Estrela do Laguinho. Ele ia em frente, eu quebrava para a esquerda na Av. Ernestino Borges, e o Eduardo, o Bico Doce – apelido dado por soprar uma flauta com muita destreza – descia para a Rua São José, no Igarapé das mulheres. Tadeu não.

Tadeu ficava em sua casa próxima ao Cemitério da cidade, onde a morte para nós, era apenas uma cruz, sobre um monte de terra fofa.

Conversávamos o ano todo sobre a matéria dada em aula, a prova, os professores, as festas nos Clubes da cidade, as meninas, ‘Os Brotos’, e o futuro. O futuro mais longe era nessa ordem.

Foto: G1 Amapá

Fazer os 15 anos, usar calça comprida 9ainda andávamos de bermudas), os dezoito anos, servir o exército através do Tiro de Guerra da Cidade de Macapá, território Federal do Amapá, e a Copa do Mundo, de 1970…tão longe…longe demais para tentar se escalar um time. Não tínhamos o fantasma da Revolução ainda por perto, e o barato era ouvir na Rádio Timbiras do Maranhão, a rádio novela Jerônimo…O Herói do Sertão, e assistir Domingo à tarde no Salão Paroquial dos Padres, o seriado do Cavalheiro Mascarado que servia de combustível para os comentários na escola durante toda a semana.

Um moço chamado Roberto Carlos gravara um Compacto Simples, e um jogador do Amapá, chamado ‘Palito’, havia ido treinar no Vasco.

Eu me preparava para ganhar a primeira calça comprida. Alípio ganhou bicicleta com garupa, e Eduardo ganhou um violino – que mais tarde ficou dependurado na parede do quarto, de Janeiro de 1965 até hoje.

Tadeu ganhou um violão e, canhoto, não inverteu as cordas.

Hoje o futuro pertence ao passado; estou em Osasco, de onde mando um abraço pelo Aniversário de Alípio que mora no Rio.

Tadeu continua em Macapá e Eduardo não viu estes múltiplos últimos anos, morreu em 1965, em Janeiro. Os viu por nossos olhos, afagou os filhos de cada um, por nossas mãos, e torce pela Copa do Mundo de 2014 no Brasil, pelos 50 anos da carreira de Sucesso de Roberto Carlos, pela Estátua de ‘Palito’ defronte ao Amapá Clube, pelo leilão dos Rótulos de Rum Montilla em Jamaica.

Coisas que nossa projeção de futuro não imaginou jamais.

Isso em 1962.

Quando Deus ainda não era brasileiro, nem o Papa…Argentino.

* Do livro de Contos “Defronte a Boca da Noite, moram os dias de Ontem”.


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