NO MEIO DO FIM DO MUNDO – Crônica de Evandro Luiz

Este editor, com o autor dessa crônica porreta, o jornalista Evandro Luiz. Foto de 2017, feita pela poeta Jaci Rocha, na casa da escritora Alcinéa Cavalcante.

Crônica de Evandro Luiz

Antônio Laranjeira sente pingos de chuvas nas costas. É como se fosse um aviso, o que faz aumentar o ritmo de trabalho. Sabe que tem pouco tempo para retirar a última safra de mandioca. Olha para cima e o que vê? São sinais que ele bem sabe interpretar. Nuvens escuras carregadas que expelem relâmpagos sempre acompanhados de trovões. São tão fortes que nem um pássaro se atreve a bailar no meio da floresta.

No rosto de Antônio, o suor e água se misturam e percorrem o mesmo caminho feito pela dureza do trabalho do campo. Início do mês de Março. Das cabeceiras dos rios Jari, Amapari e Araguari são despejados um volume de água imensurável. As chuvas esmagam as plantações agrícolas, nos lagos, igarapés e rios. O nível da água subiu tanto que os peixes desapareceram desses lugares.

É nesse cenário de alternância climática que Laranjeira vive há vinte anos com a mulher Izabel e o filho Lucas, de sete anos. Agora ele decidiu que viria para a cidade grande. Por enquanto, viria só. A mulher e o filho ficariam em casa de amigos. Viria buscá-los com o salário que deveria ganhar trabalhando. Na despedida nenhum choro, nenhum abraço, apenas olhos marejados de quem deixa pra trás apenas o dote da incerteza.

No meio do caminho, ouviu o grito dos vaqueiros tocando a boiada rumo as marombas, curral de madeira construído acima do nível do rio. Serão assim nos próximos 5 meses. O caminhão, um pau de arara velho, já carregado com frutas e legumes é o único meio de transporte para a chegar na cidade grande. Depois de uma viagem longa e dolorida, Antônio Larajeira, desembarca em uma estação rodoviária barulhenta, suja e muita gente correndo de um lado para outro.

O mototaxi foi a primeira novidade. Mostrou o endereço no bairro Zerão e, lá se foi Antônio Laranjeira com sua pequena bagagem na garupa de uma moto cortando as ruas e avenidas da cidade. Foi levado até uma área de ponte. Na frente da casa onde ia ficar, 4 crianças brincavam sem perceber o perigo que corriam se alguma delas caísse dentro do lago. Ele foi recebido por Dayse, de 15 anos de idade, sobrinha da esposa de Laranjeira. Ela vivia com José Gregório, conhecido na baixada como Faísca.

Corria pela boca pequena na comunidade, que Faísca era foragido da polícia. Acusação: ele tinha deletado o CPF de três homens em Bacabal, outro município do Maranhão. O barraco tinha apenas uma sala e dois quartos. Tudo dividido por cortinas de pano.

Nem bem chegou, e já queria sair atrás de emprego. Foi aconselhado a descansar e no outro dia sairia com Faísca em busca do emprego. Mas no meio da madrugada, foi acordado. Faísca disse que tinha um trabalho a fazer e que renderia um bom dinheiro. Deixou a pequena mochila em um canto onde fez dela o travesseiro.

De bicicleta os dois saíram, ninguém na rua, silêncio total. De longe avistou um estádio, sentiu no rosto o ar fresco da madrugada vindo do grande rio. Olhou para o outro lado e ouviu o som de tambores gemendo as dores dos antepassados. Faísca disse que ia faze rolé pra ver a situação. Antônio ficaria esperando. No meio da escuridão, Laranjeira pensou na família, nos tempos em que a pororoca atraia gente de vários lugares do mundo e sempre requisitado por conhecer bem a região.

O amanhecer chegava e as estrelas sumindo. O céu ia tomando cores avermelhadas e o azul do infinito se espalhava anunciando um novo dia. Antônio Laranjeira como que embriagado pela atmosfera flutuava em sonhos platônicos.

A volta a realidade foi tão dura quanto a vida que levou. O impacto por trás o levou a lembrar do ronco da pororoca chegando, anunciando a destruição que o fenômeno fazia ao encontrar o que tinha pela frente. Laranjeira foi arrastado por mais de cem metros deixando no asfalto sangue e a esperança que tanto sonhou. O carro sumiu deixando Antônio agonizando. Viu a vida passar como se fosse no vídeo tape.

Foto: Márcia do Carmo

Sentiu um calor suave no rosto. Era o exato momento do alinhamento do sol com a linha imaginária do equador. O som dos tambores diminuíam em sintonia com as batidas do coração do agricultor. Antônio Laranjeira deu o último suspiro e morreu no meio do mundo em pleno Equinócio das Águas.

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