O amigo das mulheres

                                                     Por Igor Reale
Sou amigo das mulheres. Amigo mesmo. Não, esse texto não vai ter uma reviravolta sacana e eu não contarei que depois de ser amigo, eu como as minhas amigas. Isso não acontece e jamais vai acontecer. Sou tão perigoso para uma mulher quanto uma rosa. Se bem que as rosas podem espetar as moças desprevenidas. Eu não espeto nada.

Parem de me julgar. Explicarei a minha origem. Uma vez, eu vi um documentário sobre um homem que matou duas mulheres. O documentário explicava a infância difícil do rapaz. Nossa, como ele sofreu. A mãe obrigava o pobre menino a carregar pedras coisas do tipo. É natural que ele sinta vontade de estuprar, degolar, esquartejar e emparedar pessoas. A origem explica tudo.

A minha origem é a de qualquer viadinho chorão. Meu pai deixou a nossa casa bem cedo. Eu tinha quatro anos e a minha irmã tinha dois. Ao invés de fazer algo saudável, como virar lésbica e cantar MPB, a minha mãe treinou eu e a minha irmã para odiarmos o nosso pai e, a longo prazo, os homens. Ela foi bem sucedida nessa parte. Pelo menos comigo.

A nossa casa estava sempre cheia de mulheres deixadas. Elas conversavam a noite toda sobre os seus ex-maridos, namorados e coisas do tipo. Ao som de Roberta Miranda. Uma delas, fazia perucas. Como eu tinha pouco cabelo, as perucas eram sempre testadas em mim. Às vezes, esse teste exigia um pouco de interpretação teatral da minha parte. Então, eu era lindamente maquiado e me tornava a rainha do baile de inverno por alguns minutos e todos os rapazes iriam querer sair comigo.

Meu pai odiava essa interação. Um dia, ele me flagrou caracterizado e teve uma crise de raiva, rasgou o vestido que eu usava e jogo um copo de água no meu rosto para tirar a maquiagem. ”eu odeio o senhor, papai”, eu disse e ele me bateu. Não pela ultima vez. No entanto, eu parei de me vestir de forma feminina.

Esta é a minha origem. Ela explica algo?

Cresci me tornei amigo de muitas mulheres. Elas trocam de roupa na minha frente, falam dos seus relacionamentos, falam de outras mulheres e coisas do tipo. Eu, no meu papel de eunuco obeso engraçado, ouço tudo, aconselho e procuro soluções para as vidas complicadas delas. Tenho alguns amigos homens. Mas não consigo falar sobre coisas de homem. Entedia-me muito.

Um dia, resolvi tentar e narrei esse texto inteiro para outro homem. Ele perguntou do meu pau. Fiquei constrangido, mas respondi que apesar de dormimos juntos, comermos juntos, irmos aos mesmos lugares e tal. Meu pau e eu somos completamente estranhos.

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