O AMOLADOR – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

“Fazia um silêncio de princípio de mundo”.
(Dalcídio Jurandir)

Contam que qualquer desgraça, a menor que fosse, já era esperada pelos trezentos e tantos moradores da Vila Vistosa de Manga Rosa. Há três meses não chovia e a terra rachava tal como os pés dos lavradores. Os moradores viviam acabrunhados pelos cantos e todos eles martelavam uma angústia terrível, embora houvesse quem espichasse um fio de esperança e levasse alguns fiéis a crerem mais no futuro.

Catarino, o amolador, deslizava suavemente o rio na sua ubá com o intuito de passar uns tempos em Manga Rosa, continuando sua peregrinação profissional entre as pequenas comunidades das ilhas, nas quais arregimentara grande prestígio e a consideração dos pescadores, dos comerciantes, dos lavradores e madeireiros. A bordo, sua mulher Renilda apalpava e penteava os cabelos lisos que de longos transpareciam auriluzentes contra o sol da tarde.

Fora um dia desmedido. Nunca se vira um arco tão claro e tão flamejante no céu daquelas paragens onde tanto chovia e tanto verde medrava antigamente sobre os barrancos aluviais. Os dois comenta

ram o tempo da última viagem à vila e a estreiteza do rio e suas margens lamacentas, pois mesmo com a maré elas permaneciam distantes, assim como se o rio se recusasse a dar seu conteúdo àquela gente pobre que dependia exclusivamente de sua passagem por ali.

À medida que remavam vinha a seu encontro um canto, que de murmúrio passava a ser um coro de lamentos. Era um antigo cantochão pronunciado em latim.

Aportaram com dificuldade no barro da beira do rio, puxando a pequena embarcação para a praia, como se tivessem certeza de que a maré subiria.

– É uma ladainha, disse Catarino. – O estranho é que não é tempo de festa do padroeiro, nem Semana Santa.

– Pode ser que alguém tenha morrido…

– É, tem muita cobra nesta ilha.

Subiram o cais do vilarejo banhados pelos últimos raios de luz. Na rua principal havia uma pensão onde conseguiram um quarto de chão batido, meio úmido. Armaram suas redes em escápulas ruidosas, e exaustos da viagem adormeceram sem se importarem com os carapanãs que vibravam as asas num barulho infernal.

Na casa de Maneco Barbosa, o cantador de ladainhas, alguém deu a notícia de que Catarino chegara ao povoado. Os presentes, que tomavam café após a reza, ensaiaram um sorriso. Não que aquilo fosse uma grande informação, mas de qualquer maneira representava um alívio para os produtores locais, pois na região não existia pedra que pudesse amolar terçado, enxada ou qualquer outro objeto cortante.

Amanhã a gente conversa com ele. O amolador de facas pode ser a redenção de nossa vila. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, disse Maneco, com as mãos para o alto.

Para sempre seja louvado, responderam os presentes, olhando para a cumeeira da casa infestada de aranhas.

O dia nasceu seco. E a aparência desértica realçava ainda mais a acidez das coisas vivas da cidadezinha. Um raro vento levou abruptamente as derradeiras folhas da gigantesca e quase secular mangueira que a frente do esquecido lugar tinha como símbolo. As folhas amarelas flutuavam como painas, confundindo-se no ar, fazendo evoluções fortuitas, desenhando letras imaginárias de uma escrita que talvez significasse um pedido de socorro. Tal como aquelas gentes, a árvore descascava, empretecia e enrugava sob a impiedosidade do sol, cujos raios caíam como bólidos de fogo, incessantemente e sem misericórdia. As gentes diziam não acreditar em castigo, mas acreditavam, embora antecipassem visões de desgraça em virtude da falta de material de trabalho e da ausência de chuvas.

O mais impressionante era a indisposição geral de procurar ajuda, mudar-se para outra vila ou se enfiar para rezar na velha capela construída pelos ancestrais. Todos os moradores eram de origem católica, batizados por padres italianos que raramente apareciam ali para rezar uma missa e batizar as crianças.

Contam que certa vez chegou um pastor de uma dessas inumeráveis seitas que grassam no interior e lá tentou se estabelecer. Convocou os moradores para um culto, mas apenas o doido Gonçalo apareceu. Os dois acabaram discutindo, indo às raias da violência, o que obrigou o presbítero a abandonar a vila às pressas.

As circunstâncias naturais e materiais promoviam pensamentos trágicos quanto ao futuro do lugar. Quase tudo o que se conseguia para comer estava no rio retraído pela estiagem. Porém o peixe estava rareando e os pescadores não se atreviam a ir além da curva do Furo do Ninguém. Atribuíam sua panemeira às últimas palavras do pastor expulso pelo doido, quando de certa maneira houve a conivência de todos: “Esta terra há de torrar e este rio será uma estrada de barro seco. Vocês vão viver agruras até a chegada do próximo milênio, tudo porque recusaram a palavra do Senhor”, dissera, ao embarcar em uma noite chuvosa, sob vaias, risos de deboche e chavões do tipo “praga de urubu não mata cristão”.

Porém, esse fato não abalou a maioria dos habitantes. Mesmo acabrunhados com a brusca transformação de seu meio de vida e apoquentados pela incerteza do tempo, consumiam com certa frequência o que ainda restava de cachaça na pensão do Naldo, conversando sobre suas próprias mazelas, tristes e sérios. Nunca riam. Mesmo sob o efeito do álcool.

Sonolento e ainda intrigado com o que vira na véspera, Catarino sentou na rede, balançou-se um pouco, chamou Renilda e resolveu ligar seu inseparável rádio de pilha para sintonizá-lo em uma emissora da capital.

Viu atônito sair primeiro uma, depois três, depois dezenas de cabas peçonhentas do interior do aparelho que estava repleto de uma massa seca e acinzentada. Com paciência e refeito do susto, o amolador o limpou cuidadosamente, mas desistiu de ouvir qualquer programa matinal. Lá fora os carrancudos moradores estavam à sua espera.

Temos o maior prazer de receber o nosso estimado amigo em nossa terra, cumprimentou-o o rezador Maneco, apertando-lhe a mão. – Como vê, estamos satisfeitos com a tua presença. Faz uns quatro anos que nós não apertamos as mãos.

Catarino tentou sorrir, mas desistiu da ideia. Formigas de fogo devoravam seus tornozelos. Ofereceram-lhe uma barraca para morar e instalar sua oficina, gesto que conseguiu agradecer embora agoniado com as ferroadas.

Dia seguinte, sob o comando do cantador de ladainhas, o povo organizou uma fila imensa, munido de suas ferramentas enferrujadas para apreciar o trabalho de Catarino, já devidamente instalado e pedalando o esmeril para afiá-las. Crianças curiosas metiam-se entre os adultos para ouvir o incessante barulho da máquina de amolar e observar com seus olhos brilhosos as faíscas da pedra. Quem tivesse dinheiro e quisesse pagar o trabalho, pagava. As senhoras, deslumbradas com o novo fio das facas, corriam para descascar velhos pedaços de macaxeira armazenados nas despensas. Um dos derradeiros bois do povoado foi sacrificado em nome da coletividade e repartido entre as famílias, com a anuência do proprietário, que o mantinha vivo com palmito moído no pilão. Lavradores recorreram aos depósitos para catar sementes e plantá-las nas roças abandonadas. Jovens e velhos rasparam as barbas e se perfumaram. As mulheres depilaram os sovacos e os pelos das pernas com navalhas afiadas, improvisaram salões de beleza para tirar cutículas e queimaram pulgas e piolhos, locatários dos seus longos cabelos. Alguns homens cortavam lenha e outros penetraram na mata estorricada procurando vestígios de frutas e raízes. Até caçavam para suprir a necessidade alimentar da comunidade.

Naldo, o dono da pensão, convidou a todos para uma festa que queria dar no centro comunitário em homenagem a Catarino e sua mulher, por terem conseguido a união dos moradores e a esperança comum de os mesmos sobreviverem com maior coragem através do trabalho. Até já sorriam. Faltava agora chegar o período chuvoso.

A festa começou com discursos e aplausos, mas infelizmente terminou logo, assim que um rapaz embriagado quis dançar com Creuza, uma das mais bonitas moças do lugar.

Recusado, o bêbado chutou o rádio de pilha que Catarino havia emprestado para o evento, e de dentro dele saíram novamente centenas de cabas coloridas dispostas a picar os convivas. No corre-corre alguém puxou de uma peixeira e acertou o infeliz causador da confusão, que rolou no chão estrebuchando. Dois de seus irmãos, revoltados e armados com canivetes, partiram para cima do agressor e o mataram, fugindo em seguida.

Quando o dia amanheceu, enterraram os mortos em caixões improvisados, sem o tradicional rito de encomendação das almas.

***

Catarino ficou surpreso ao receber aquelas pessoas deformadas, carrancudas e nervosas vindas do cemitério, trazendo objetos para amolar. Cada qual tinha o semblante carregado, agravado pelo inchaço das ferroadas.

Nos dias sequentes os homens nunca mais rasparam as barbas e nem as mulheres se depilaram. Foram ficando cada vez mais feios, sujos, embrutecidos. O amolador constatou que a maioria das ferramentas afiadas retornava a ele diariamente. Alguma coisa além do habitual estava acontecendo.

O vai-e-vem das ferramentas foi fundamental para que Catarino tomasse pé da situação: suas pedras de amolar estavam gastando em excesso, assim como os objetos dos moradores da vila. Facas, serrotes, tesouras, formões, enxadas e foices afinavam dia a dia, enquanto o estoque de esmeril diminuía. Ele e sua mulher notaram que outras coisas também modificavam.

Observaram, por exemplo, que as pessoas envelheciam e entanguiam precocemente, talvez por causa da quentura e da claridade da estiagem. Dava pena ver moças com tantos pés-de-galinha e rapazes de testa e pálpebras encarquilhadas. Velhos há pouco dispostos para o trabalho agora eram lassos, espectros impossibilitados de andar. As crianças pareciam albinos fugindo do sol, e os cães, feridentos, desabavam constantemente em alguma rara sombra, com um palmo de língua para fora.

Tomava conta da vila a desolação. Havia uma irritação permanente e recíproca entre todos, e até as lembranças recentes eram pequenas. Ninguém, nem Maneco Barbosa, conseguia recordar na íntegra a ladainha aprendida havia décadas com os padres italianos. Vegetais que outrora abundavam os arredores enterravam-se no solo poeirento, afundando até o caule. Seus galhos secos ficavam como dando adeus à vida, tal como mãos de afogado no pedido de socorro.

Os alimentos rareavam e o povo padecia de fome inevitável. Só o casal de amoladores tentava compreender a vala que sobrara do rio, lembrando o que lhes contaram sobre as proféticas palavras do pastor expulso do povoado. Na sua simplicidade pensavam eles que talvez tudo aquilo tivesse sua origem na Justiça Divina ou no mínimo fosse de origem política, pois acostumados a andar na região, nunca haviam visto tanta desassistência e tanta miséria. O amolador recordou que antes de ali chegar, em toda a região chovia. E muito, exceto em Manga Rosa que de vistosa nada mais tinha. Aliás, lembrou, nem cobra existia mais naquelas brenhas. Tudo virara alimento para a população faminta.

Decidiram mudar. Num momento de folga calafetaram a ubá que ainda jazia no barro seco da antiga praia e a empurraram para a vala, aquilo que restava do rio. Iriam pela manhã. Quase nada tinham para levar de volta e não havia necessidade de se despedirem.

À meia-noite um vento assobiou entre os galhos das árvores, correu penetrando as casas de pau-a-pique e se alojou no centro do rio. Outro vento desenvolveu o mesmo percurso. E outro. Mais outro…

Renilda foi a primeira a acordar. Chamou o marido no momento em que um clarão vindo do céu quase os cegou quando penetrou pela janela aberta. Três segundos foram o suficiente para toda a população sair à rua após o forte trovão que ensurdeceu a todos. Seguiu-se uma tempestade sem precedentes. Então gritos e orações se misturaram a choros incontroláveis. Choveu por cinco horas e ninguém mais dormiu.

A árvore símbolo e os outros vegetais secos da vila amanheceram com uma profusão imensurável de besouros. Eram tantos que pareciam formar uma espécie de teto sobre o lugarejo. Mesmo assim, os homens estavam mais alegres e muitos se cumprimentavam sem irritação ou desconfiança. E havia sinais de muita, muita chuva por desabar. Eles que se preparassem, pensou o amolador, a água que se aproximava era tanta que poderia matá-los afogados.

Catarino apanhou sua pequena bagagem e caminhou o rio junto a Renilda. Reconsertou a ubá, tirou a água do casco e substituiu o toldo de palha destruído pela chuva.

Ao fim do conserto, partiram devagar, contemplando a Vila Vistosa de Manga Rosa, lugar de coisas inomináveis, palco da miséria exacerbada e de homens endurecidos pelas circunstâncias. Um adeus era muito para quem partia a salvo com os corpos marcados, cansados e gastos como as pedras de esmeril que ainda sobraram.

 

*Este conto de Fernando Canto está publicado no e-book “Os tempos Insanos“.

 

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