O bairro do Laguinho – Crônica porreta de Fernando Canto republicada por conta dos 77 anos do bairro– @fernando__canto

*Imagem: Acervo pessoal de Fernando Canto – 1978

Por Fernando Canto

Em nenhuma cidade do Norte do Brasil se conhece um bairro, em termos proporcionais, onde a maioria da população seja negra e os elementos formadores de sua comunidade sejam descendentes diretos de escravos, como acontece no bairro do Laguinho, em Macapá. Os negros, originalmente, ocupavam a frente da cidade, próximo ao trapiche municipal e ao estaleiro. Muitos viviam da pesca e do plantio da mandioca, no largo de São José, hoje Praça Barão do Rio Branco. E com a transformação do Amapá em Território Federal e a consequente instalação do primeiro governo, Macapá foi decretada capital.

A transferência dos negros para a parte norte da cidade não foi um fato enfrentado com passividade por eles; daí naturalmente surgiram alguns núcleos de reação contra a arbitrariedade cometida pelo governo, que retirou os negros da frente da cidade com o objetivo real de preparar o referido local estrategicamente situado às margens do rio Amazonas.

Foto: Elton Tavares

O Laguinho, chamado antes de Poço da Boa Hora, era uma ressaca de águas estagnadas, cercada de buritizeiros, local hoje situado entre as ruas Odilardo Silva e Eliezer Levy. Tratava-se de um lugar temido, misterioso e encantado, moradia de caruanas e iaras, excepcionalmente tétrico à noite e culpado pelo desaparecimento de muitas crianças. O Poço da Boa Hora era temido pelos negros que, mesmo professando a religião católica – embora não houvesse nenhum padre em Macapá, na época – consultavam pajés, catimbozeiros e benzedeiras para espantar os espíritos maléficos que habitavam o lugar.

Fotos: Blog Porta Retrato

O Laguinho é palco de muitas manifestações tradicionais, entre elas o Marabaixo mais autêntico, organizado por mestre Julião, Ladislau e pela saudosa parteira Mãe Luzia. A criação de escolas de samba em Macapá também começou nesse bairro, com a fundação da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho.

Foto: Mariléia Maciel

É interessante lembrar o quanto aquela gente de fala mansa, quase cantante, contribuiu para a formação cultural de Macapá. Hoje, em qualquer botequim do bairro, pode-se ver três ou quatro pessoas reunidas tomando uma “pura”. Basta ter um atabaque ou um violão por perto para ouvir essa gente cantar os versos do maior compositor do Laguinho, Raimundo Lino: “Laguinho, ô Laguinho/ É bairro da tradição./ Laguinho mora no meu coração./ É ódio dessa gente que não sabe o que faz./ Laguinho é o orgulho de nosso carnaval”.

Fernando Canto, Renivaldo Costa e outros ilustres cidadãos do Laguinho, na “marabaixeta”. Arquivo do jornalista Renivaldo Costa.

*Laguinho é berço da cultura de Macapá. O escritor e querido amigo, Fernando Canto, nasceu e se criou no Morro do Sapo, no Laguinho. E diz que desde antes da chegada de Janary Gentil Nunes, o primeiro governador do Amapá, que ocupou o centro de Macapá com as residências e prédios oficiais, em 1945, quando os habitantes de Vila Engrácia foram transferidos para o então Poço da Boa Hora, e o povoamento do bairro Laguinho ja existia, mas essa é a data oficial e são 77 anos

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