O fino da grossura

Por Nelson Motta
Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, é o melhor romance brasileiro que li – às gargalhadas – nos últimos anos. Um diretor de comerciais decadente e louco por sexo, drogas e encrencas, se envolve com uma seita de surubrâmanes e mergulha em uma epopeia tragicomicossexual de 480 páginas em que a invenção literária, a cultura pop e o rigor da linguagem estão a serviço do humor e da crítica social com uma graça e uma grossura raramente vistas juntas em nossas letras. É o fino do grosso.
É como se Henry Miller e Bukowski tivessem fumado, bebido, cheirado e viajado de ácido com o devasso Zeca pelo submundo de drogados, bebuns, putas, travecos e traficas da noite paulistana.
Como um Ulisses doidão, priápico e bagaceiro, Pornopopéia é movido por uma sucessão vertiginosa de acontecimentos e narrado em monólogos interiores elaborados com linguagem forte, ágil e precisa, em que Zeca relata sua epopeia pornoescatológica debochando de suas próprias metáforas e hipérboles, avacalhando o seu relato aparentemente caótico, mas baseado em uma sólida estrutura e em personagens tão sórdidos e patéticos quanto divertidos e sedutores. Poucas vezes tanta baixaria foi elevada a tais alturas.
Sem ser um livro de humor ou de sacanagem para excitar o leitor, o guia de autodestruição de Zeca dá alta ajuda para risos e gargalhadas ao evocar as forças selvagens da sexualidade e do desejo com crueza e sofisticação, oferecendo diversos níveis de leitura, entremeando a narrativa com haikais sensacionais, jogos de linguagem de pura bobagem e pensatas baratas que o próprio narrador tem prazer em desmoralizar, só para dar uma alegria extra ao leitor – além da trama eletrizante e dos personagens movidos a sexo, drogas e imaginação em doses cavalares.
Politicamente incorreto, o Ulisses bagaceiro de Pornopopéia é existencialmente incorretíssimo, química e sexualmente insaciável e literariamente inesquecível, proporcionando um prazer intelectual só comparável aos êxtases que o sexo bandalho e as substâncias proibidas dão a Zeca na epopeia que vive dentro de si mesmo e da cabeça do leitor.
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