O homem demolido – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Ele não tinha se ligado no lance até o momento em que, num espirro, lá se foi seu nariz.

Ele não acreditou naquilo, assim como eu não acreditei quando soube do fato, assim como tu não estás acreditando agora. Mas como estou relativamente afeito a narrar coisas insólitas, continuo a narrativa.

Ele estranhou o seu nariz ali, no meio da rua, longe da sua cara, envolto em secreções, um pouco de sangue e as pessoas passando, quase pisando no nariz, sem sequer perceber o que estava acontecendo.

O espirro que arremessou o nariz causou coceira no olho e lá se foi nosso personagem esfregar. O olho caiu no chão, perto do nariz, deixando o buraco vazio olhando pro nada.

Teve vontade de falar com quem passava, nem tanto pra pedir ajuda, mas pra fazer com que mais alguém se desse conta do absurdo que era aquela cena. Quando foi falar alguma coisa, sentiu algo saindo de sua boca. Era sua língua, e alguns dentes, se esparramando boca afora, rebolando entre os pelos da barba, passando pela barriga e se aninhando no chão, entre seus pés.

Passando o carro de um amigo na esquina, o homem tentou acenar levantando o braço, que saiu do ombro e caiu no chão, se juntando aos outros órgãos e membros.

Quando ele tentou dar um passo pra sair daquele local, procurar ajuda, foi a vez de sua perna sair do encaixe do tronco e rolar pelo chão. Caramba! Aquilo já estava indo longe demais! Ou melhor: agora, sem pernas, não poderia ir a lugar algum, nem longe nem perto.

Foi quando se deu a demolição total, com todos os seus órgãos, membros, células, partículas, tecidos se derretendo pelo chão, se transformando numa massa putrefata, um líquido verde e purulento que foi escoando, escoando, escoando… até sumir na sarjeta.

Realmente este fato é muito insólito e, se não acreditas, tudo bem. Eu também não acreditaria se alguém chegasse me contando uma história absurda dessa. Só acreditei mesmo porque isso tudo foi relatado pelo Bilasca, o cachorro de rua que fica na esquina só observando o que acontece. Ele disse que todo dia alguém se esvai pela sarjeta sem que os passantes notem. Eu duvidei do Bilasca naquele momento, mas ele jurou que era a mais pura verdade. E nas palavras do Bilasca eu boto a maior fé. Tenho dito!

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