O JULGADOR JULGADO – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

“Segura meu segredo, neguim/ De ti não tenho medo, neguim / Comigo-ninguém-pode, tajá/ Comigo-ninguém-pode, tajá (…)
Tomo banho de alho/ misturado com sal grosso/ Rezo pros meus guias/ Vou bebendo água de poço/ Água de poço” (Tajá – Letra de Fernando Canto e música de Osmar Júnior- 1988)

Não é a primeira vez que tentam enlamear meu nome por causa de coisas que penso e faço.
Já me disseram até que eu tenho que tomar banho de alho com cachaça e sal grosso para acabar com a ziguizira, tantos são os sentimentos baixos que algumas pessoas nutrem em relação aos meus fazeres, e olhos adiposos vivem a me espreitar pelos caminhos que construo, jogando energia negativa em minha direção.

A trama kafkiana com a qual envolveram meu nome em um episódio que eu nem queria participar começou no festival de músicas de Marabaixo na localidade do Curiaú, no sábado passado. Fui lá acompanhado de minha mulher prestigiar o evento, afinal eu estava há algum tempo ausente do Estado e queria ver a nova produção musical da tão festejada manifestação da cultura popular amapaense. Como já passavam duas horas e meia da hora prevista (seria às 20h00) para começar até pensei em ir embora, pois viajaria para Mazagão Velho, mas resolvi ficar para assistir.

Foi então que fui convidado para ser jurado no quesito criatividade pelo senhor Carlos Rosário, o conhecido sambista Carlos Piru. Disse-lhe que não dava e expus sobre minha viagem de manhã cedo. Depois refleti melhor, afinal por que não ajudar? Pensei. Então o procurei logo em seguida e ele topou, mandando a mim o percussionista Pezão e uma moça da organização que não conheço e sequer sei o nome. Os dois me pediram para julgar, agora o item melodia, pois o jurado escalado faltara. Ela me pediu o currículo e eu lhe informei que era sociólogo, integrante do Grupo Pilão e jornalista. Lembro que ela escreveu errado e o apresentador anunciou que eu era “intérprete”, coisa que eu não sou.

No decorrer do julgamento falei à tal moça da organização que queria beber cerveja e ela, solícita, me trouxe uma skol pequena, que apelidam de “periguete”. Mal eu sabia ali que se tratava de uma armadilha para me escorraçar mais à frente. Mesmo assim envolvi a latinha em um guardanapo para não ser fotografado, assim … meio desconfiado da “gentileza”. Fiz meu julgamento com zelo e acuidade, escrevendo a justificativa de cada nota dentro do quesito específico melodia, que conheço, pois estudei música. E também conheço as características melódicas, harmônicas, rítmicas e poéticas dos “ladrões” de Marabaixo, pois frequento as rodas dessa dança desde criança, quando aprendi a ouvir e respeitar, tanto que procurei entender suas origens africanas e portuguesas. Por isso sei do que estou falando.

Sou filho da viúva e venho há anos buscando a compreensão de ser justo e perfeito. Por isso minha consciência jamais vai titubear perto de uma oposição mesquinha e anódina a meu nome e minha biografia, que levei anos para construir e que muitos já tentaram corroê-las com o ácido da inveja e da mediocridade tão peculiar dos fracassados.

Já disse que não é a primeira vez que isso acontece. Como sou um artista de origem pobre, e bebia, me chamaram de cachaceiro; como eu era músico e usava o cabelo grande no tempo da Jovem Guarda, chegaram a duvidar da minha condição de macho; como eu usei barba e cabelos compridos e era universitário pós-woodstock e pós-Beatles, disseram que eu usava maconha; como eu pensava, no underground do regime militar, me rotularam de subversivo. E agora que conheço um pouco mais da cultura popular me chamam de tendencioso, num nítido e rançoso processo que visa destruir minha reputação, num momento em que me sinto vitorioso por minhas conquistas, graças a participação de centenas de pessoas que sempre estiveram ao meu lado me dando força e me estimulando a seguir novos caminhos. Entre elas está o povo do Marabaixo, a quem nunca deixei de falar da minha gratidão pelo conhecimento adquirido.

E é nessa condição de múltiplas identidades amapaenses (que todos temos) que repudio não apenas as platitudes dos chamados organizadores do tal festival de músicas de Marabaixo, com a minha consciência tranquila de que o “ladrão” Negras Guerreiras era a melhor de todas as melodias (quesito julgado por mim) que foram apresentadas naquela noite e que o motivo para tirarem minha notas não é outro senão a certeza de que meu julgamento tinha base sólida, pois todas as notas foram justificadas com justeza, precisão e certeza sobre a coisa julgada.

Não vou entrar no mérito dessas idiossincrasias excruciantes dos organizadores do evento, pois já fui julgado inúmeras vezes por pessoas inescrupulosas e desonestas, ainda que o tempo tenha sido o senhor da justiça e me favoreceu com o sucesso das coisas que fiz na música e na literatura e com o esquecimento histórico de quem corrompeu os juízes para vencer.

Como é tempo de Natal eu não me preocupo com as bocas de cachorro, mas com a paz e a harmonia que invadem meu coração e falam de amor e de perdão. E ainda sopram uma brisa leve e perfumada sobre a nossa cultura tão vilipendiada por homens e mulheres que desconhecem sua origem e culpam os outros por saberem. Isso, sim, é uma discrepância inominável entre dizer conhecer e pensar que sabe.

Feliz Natal, amigos. E viva nosso Marabaixo com seus ladrões ancestrais e seus compositores geniais.

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