O menino que roubava livros – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Que roubava, não! O menino que rouba livros! E esse menino sou eu! Tá, tudo bem, já estou mais pra velhinho do que menino, mas fiz analogia com o título do filme “A menina que roubava livros” para nomear esta crônica. E por falar em crônica, vamos a ela.

Sou um contumaz ladrão de livros e não me considero criminoso. Pelo contrário, sou um benfeitor da humanidade. Não coloco na condição de crime essa modalidade de roubo. E também não se trata de vício e, sim, de uma virtude. Passemos ao meu ponto de vista sobre o assunto e ao discurso de defesa, caso seja flagrado em algum momento perpetrando o meu “crime”.

Um livro não manuseado perde totalmente sua função. Por isso, não hesito em levar pra casa os que encontro largados, em total abandono e esquecimento. Não me sinto bem ao ver um livro na estante de alguém que o mantém ali apenas para ostentar uma possível erudição ou, pior ainda, para dar ao livro a simples função de ornamento, um objeto de decoração. Aí eu liberto o livro daquela situação vexatória, contrária à sua natureza, que é abrir horizontes, ser o portal de viagens interplanetárias, cruzar oceanos, desbravar novas terras. Ou simplesmente vasculhar o universo que há dentro de cada pessoa.

Na verdade, o Código Penal pode classificar como roubo, mas eu chamo de adoção. Pego o livro que estava destinado a alimentar traças e acumular poeira e o levo pra casa, onde receberá a devida atenção. Eu limpo o livro com todo o carinho e faço uma restauração básica, tipo colar páginas soltas e reforçar a lombada, caso seja necessário. E, depois de lê-lo, guardo-o em um lugar especial, todo pensado para abrigar livros, onde será respeitado e colocado à disposição de quem queira se aventurar por essa viagem fantástica que é a leitura de um livro.

Portanto, meus caros amigos, cuidem bem dos seus livros ou, caso eu tenha uma oportunidade, vou incorporá-los ao meu humilde patrimônio bibliotecário. Mas não tenham medo de me emprestar algum livro, porque faço questão de devolvê-los. E minha pequena biblioteca não é feita somente de livros roubados. Também os compro nas livrarias e sebos e faço girar o mercado editorial. É, pessoal! Esse negócio de roubar livros tem seus critérios muito bem definidos.

“Tropeçavas nos astros desastrada / Quase não tínhamos livros em casa / E a cidade não tinha livraria / Mas os livros que em nossa vida entraram / São como a radiação de um corpo negro / Apontando pra expansão do universo / Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso / E, sem dúvida, sobretudo o verso / É o que pode lançar mundos no mundo” (trecho de Livros, música de Caetano Veloso)

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