O NOIVADO – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Tenho duas preocupações na minha cabeça. Hoje, 17 de abril de 1968. Delas, a primeira são as janelas da repartição pública em que trabalhei trinta anos. A segunda é sua certeza de que devemos viver o resto de nossas vidas juntos.

A primeira tenho quase certeza de que com um pouco de boa massa de vidraceiro contornarei o problema. Estou aposentado, mas não perdi o raciocínio. É certo que me encho de sono quando vejo o mar se arrebentar a cada minuto contra os arrecifes. Ele é como eu. Tudo o que fiz, repeti tantas vezes que decorei.

Decorei o caminho para Olinda. A burocracia do serviço público. Meus conhecimentos sobre insetos. A conversa semanal com meus amigos reunidos neste apartamento falando sobre quadros geométricos, e nuances de cores do nanquim.

Tenho a impressão que são duas e quarenta e cinco da manhã. Com você não sei como resolverei sem o som da marcha nupcial: tamtamtam…tamtamtam…tamtamtam…

Volto ao banheiro para dar descarga no vaso sanitário. Um cheiro de rato podre me aborrece desde a semana passada.
Rato podre no décimo terceiro andar?

Há duas semanas tenho lhe magoado com o meu “não” ao nosso casamento. Penteio o que resta dos meus cabelos com um pente largo sem cabo. Pareço o meu pai no espelho.
E você minha mãe.

E você, quando desce para ir a praia comigo ou para irmos ao Supermercado, ainda me segura pelas mãos, e puxa meus sessenta e quatro quilos, nestes um e setenta e cinco de altura, como se eu fosse a sacola que trazemos sempre abarrotada de latas e vidros. Não gosta de me deixar ir a rua sozinho, pois diz que eu atraio formigas.

Sempre esquece meu aparelho descartável com que aparo os pelos brancos de uma barba mal resolvida, arruma minhas meias em pares trocados, e entope o ralo do banheiro com o sabonete amassado. Para que formigas não entrem pelo ralo e procurem minhas roupas , que eu espalho pelo cantos do apartamento.

Olho meu terno de Gabardine, vejo uns pontos puídos aqui, e ali. Vejo formigas. Estou na repatição.

Não vou retira-lo do corpo. E ficar de camisa social. Deve ter algumas formigas, pela roupa, desconfio pelos buraquinhos feitos no tecido, aqui e ali…

Mas como poderei deslocar a enorme flanela que protege minha escrivaninha para subir e retirar o vidro da janela mais alta.

As mangas apertadas do paletó me impedem amplos movimentos. E se o vidro cair? Já não se fazem mais vidros deste padrão, desenhado, uma Deusa e um Fauno.

Hoje daqui da janela, do decimo terceiro andar. Estou me demorando mais do que o costume, olhando longe a espuma do mar. Venta muito.

Você insiste há vinte anos em casar, ter filhos e esperar netos que entrem correndo pelo corredor com os sapatos sujos de areia. Vejo-a balançando lentamente, na parede sua sombra projetada pela luz mortiça da sala, parece o movimento das aranhas, mas são suas pernas sincronizadas com as sombras que elas projetam.

Quer ter filhos, mas temo que você não resista a uma cesariana. Afinal tem duas pontes de safena, e uma perturbação espiritual que se manifesta quando diz enxergar Nossa Senhora de Lourdes lá no canto esquerdo da sala.

E se eu lhe levar embora desta redoma de vidro em que lhe tranquei há dois meses sem comer e beber, só para tomar jeito?

Quem colocará massa de vidraceiro nos meus ouvidos quando as formigas invadirem Recife.

*Do livro “Antena de Arame” – Editora Rumo Editorial – 2009

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