O Perdão – Por Rohane de Lima

Por Rohane de Lima

Durante muitos anos fui professora das aulas de Ética na Universidade. Sempre busquei sair do campo da Deontologia e ir mais pro espaço da História das Ideias, pro campo da Filosofia. Com o surgimento da Agenda 21, conseguimos incluir como disciplina , dentro do Módulo de Introdução às Ciência Agrária a disciplina Ética para a Sustentabilidade. Tudo isso me fez ler muito sobre épocas em que a humanidade teve que passar por mudanças de paradigmas… nunca imaginei que viveria o suficiente para tamanha angústia…

O Mundo em que vivemos está de cabeça pra baixo, não existem certezas, não existem dúvidas, não existe ordem… instala-se o Caos. O medo passa a ser um sentimento prevalente, pois a bolha pessoal, de cada um, encontra-se ameaçada. O Mundo, tal como o conhecemos parece estar no fim, parece estar ruindo diante de nosso ser sobressaltado. E o Novo, o Mundo que vai nascer, ninguém consegue saber como será. Ninguém sabe se estaremos prontos pra ele, se seremos capazes de construí-lo, se conseguiremos nos adaptar ao novo! Novo? Que novo será este que nossa imaginação não alcança? Parece que nossas referências, onde sempre nos ancoramos já não conseguem nos fazer sentir que estamos seguros, já não funcionam…!

Os mais conservadores resistem tentando manter o velho mundo a todo custo, os que tem a mente um pouco mais aberta se desesperam, porque acreditam que o novo virá mas também padecem do desespero do fim, pois toda crença não passa de uma crença! E tudo, tudo nos mantém em altos níveis de estresse.

Ávidos olhamos pro Céu e pedimos ao Pai que nos mostre o caminho da estabilidade, da certeza – no máximo, alguns conseguem ter esperanças, outros continuam em desespero! Parece que o Pai não responde, não nos ouve… talvez! Vou sugerir que em lugar de olharmos para o Céu (O Pai) olhemos para a Terra (A Mãe)! Afinal, o Pai definiu os princípios, os caminhos da vida, os valores de permanência, e Ele fez isso desde a criação, há muito tempo. Dizem que até nos mandou O Filho!!

A Mãe, a Terra que nos acolhe, o útero e o Coração Materno do Criador, de quem recebemos a matéria primordial, é ela que vem tentando nos educar. Olhemos para dentro, pois que somos Terra, olhemos para as nossas águas (emoções, sentimentos, sensações), olhemos para o quanto nos ferimos, para o quanto tem de cada um de nós nesse Caos!! Tentemos perceber o tanto que nos afastamos da Mãe que nos carrega até hoje; o quanto temos ferido a vida, ao desvincularmos nossas necessidades daquelas que a Mãe nos supre. Quanta energia temos desperdiçado para sermos diferentes, para sermos indivíduos intocáveis e únicos? Quantos esforços temos desprendido para não nos importarmos com a Grande Mãe que, concretamente, é o único Presente que a Vida nos deu?

Tudo isso nos tornou indivíduos autônomos, independentes, fortes! Mas também nos tornou apegados a matéria inútil, nos tornou centrados demais no ego. A grande consequência foi o afastamento, o distanciamento que tomamos uns dos outros, foi o olhar para o outro pela diferença que humilha, que exclui.

Assim, cada dia mais distantes da Mãe, daquela que nos gerou e que, ainda hoje nos embala, fomos perdendo os sentimentos de equidade, de pertencimento, de compaixão. Nos tornando doentes. E doentes, formos perdendo a cada dia, geração após geração, os vínculos que nos identificam como Filhos e Filhas da Terra, fomos esquecendo a cada dia que fomos feitos do barro, que somos pó e de que ao pó voltaremos.

Auto-suficientes, independentes, fomos preenchendo os vazio da alma com consumo de mercadorias, de tecnologias, de drogas lícitas e ilícitas, fomos criando a ilusão de que uma Mulher, ou um Homem nos bastariam, que os filhos preencheriam nossas vidas, que nossos pais seriam eternos, que seríamos eternos para nossos filhos… fomos cada vez mais nos iludindo com a falsa estabilidade da matéria vazia de vida… até que a exclusão, que fazíamos de conta que não existia, que a solidão de quem se basta foi se tornando tão grande, tão imperativa, a ponto de não podermos mais receber visitas, visitar os que amamos, abraçar e beijar amigos, comungar do mesmo espaço, da amizade, da comensalidade…!

Não podemos mais sair nas ruas, passear nas praças, ir à praia sem medo do invisível (porque do visível já tínhamos pavor). Não podemos mais ver os sorrisos e nem sorrirmos, pois ninguém mais verá nosso sorriso.

O Mundo Velho está se decompondo junto com as ilusões de que o ser Humano, que o indivíduo é soberano sobre a Terra. O Mundo Velho precisa morrer…

Que Mundo estará nascendo?

Que mundo construiremos?

Seremos capazes de nos adaptar?

Nessa Sexta-feira da Paixão de Cristo, dia do Perdão das Ofensas, peçamos perdão a todos, peçamos perdão a Terra, peçamos perdão a Vida e esperemos (com Fé) que tenhamos a chance do auto perdão para que possamos construir e desfrutar (com alegria) do Novo.

*Rohane de Lima é amapaense, professora universitária que trabalhou por anos no Pará e hoje reside no Rio de Janeiro.
**Contribuição de Fernando Canto.

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