O plano

Conto de Ronaldo Rodrigues

1. Estava atolado em dívidas de jogo. Precisava de um lance de mestre para sair daquela situação. Meus credores faziam plantão em frente de casa. Já não tinha desculpas a dar. Minha imaginação era bastante fértil para isso, mas sua capacidade já estava se esgotando.

Vendi o que pude da casa, algumas roupas, minha moto quase pifada. Quando peguei a grana dessas vendas, saí para pagar parte das dívidas, mas, em vez disso, fui jogar outra vez. Quem sabe não ganharia mais dinheiro para liquidar as dívidas de vez?

Que nada! Perdi tudo e contraí mais dívidas ainda. Aí que fiquei lascado mesmo!
Só restava um plano antigo, que ainda persistia lá no fundo do baú da memória. Era um plano que abandonei várias vezes por falta de coragem. Naquele momento, decidi colocar o plano em prática.

2. Analisei bem a situação para me convencer a encarar o plano. Minha vida estava um tormento só. Sempre sobressaltado, temendo que meus credores resolvessem me cobrar de maneira mais drástica, passando das ameaças à ação, e acabassem comigo numa esquina qualquer. Ou mesmo dentro de casa.

Eu não dormia mais. No máximo, desmaiava alguns minutos, vencido pelo cansaço do corpo, e logo voltava ao pesadelo do lado de cá do sono.

Decidi agir. E logo.

3. Procurei o Rocha, o agiota mais poderoso do submundo em que eu transitava. Ele, sabendo da minha situação, relutou em me fazer o empréstimo. Prometi pagá-lo em dois dias com juros a 100%. Além do mais, o dinheiro pedido, três mil e quinhentos reais, era irrisório para ele.

Rocha me deu o dinheiro junto com a clássica ameaça:

– Daqui a dois dias a gente se vê. Se não tiver a grana na mão, nunca mais tu vais fazer negócio com alguém.
– Pode deixar. Em dois dias tu vais ganhar uma comissão que nunca pegaste antes.
– Só quero ver. Vais precisar de muita sorte.

4. Saí dali e procurei o Jesse James, matador que nunca deixou um serviço pela metade. Orgulhava-se disso, relatando alguns assassinatos cometidos por dinheiro e outros sem motivo algum, só pelo fato de não ter ido com a cara do sujeito.

Contratei seus serviços para aquela noite mesmo. Passei mil reais ao Jesse James e prometi mais mil quando o serviço estivesse concluído. Ele era o melhor pistoleiro da cidade, mas cobrava barato:

– A gente não pode fazer tudo por dinheiro. Tem que restar um pouquinho de prazer. Além do mais, tem muita gente por aí que não devia nem ter nascido. Eu só livro a pessoa de uma existência escrota. É um tipo de missão, sacou?

Saquei.

Descrevi o cara que deveria ser eliminado, a hora e o local. Saí em seguida. Precisava preparar a festa.

5. Aluguei um bordel bem afastado. Por dois mil reais, todas as meninas estavam ali para me servir. Bebida, cigarro e outras drogas estavam pagos. Era só se servir.
Bebemos, fumamos, cheiramos.

As meninas dançavam nuas só para mim. Elas não beijavam na boca de seus clientes, norma da profissão. Já li que elas nunca beijam para que o cara não se lembre da mulher que ele gostaria de beijar e a qual quer esquecer. Mas, com a grana que eu tinha colocado no lance, fui beijado por todas.

As bocas se sucederam em minha boca. Dançaram, vibraram, sorveram. Me apaixonei por todas as meninas. Eram 12 e meu fôlego não conseguiu vencer todo aquele arsenal de volúpia.

Elas gostavam de contar um pouco de suas vidas. Eu as escutei atentamente, enquanto uma delas me lambia, outra me cheirava, duas massageavam meus pés e uma resfolegava em cima de mim.

O plano estava funcionado muito bem e às cinco e meia da madrugada bateram à porta. Chegara o momento, o grand finale.

6. Pedi à dona do bordel que recebesse o cavalheiro que chegava. Que ele me aguardasse enquanto eu ia ao banheiro. Pedi às meninas que lhe dessem atenção e o servissem.

Fui ao banheiro e lá me vesti. Coloquei a camisa comprada para aquela ocasião, calcei os sapatos novos e arrematei meu figurino com uma barba branca postiça. Olhei no espelho e não me reconheci. Ótimo.
Saí do banheiro, vi Jesse James muito à vontade, em meio às meninas, e parei bem à sua frente.

Ele se desvencilhou das meninas e, como foi combinado, puxou o revólver e o descarregou em mim.

Bingo! Que plano genial! Eu acabava de me livrar de todas as minhas dívidas!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *