O poema e a prosa – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

É muito mais fácil ler um poema do que ler uma crônica. O poema já vem com o apelo visual das poucas palavras, basta colocar os dois lado a lado para que o leitor preguiçoso não tenha dúvidas e escolha rapidamente o poema. O mesmo acontece com o conto: tem enredo, narrador, personagens, tempo e espaço, é muita coisa para quem não compreende a verdadeira magia da literatura. As poucas palavras do poema têm a vantagem do efeito concentrado, em menos de um minuto o leitor pode degustar uma peça de raro prazer. Aí está uma das mais importantes funções da literatura, a fruição, o prazer, o gozo. O poema, quando é bem escrito, ou seja, quando realmente tem poesia, proporciona a fruição imediata. É como colocar um doce sobre a língua úmida. O prazer da prosa é mais lento, vai surgindo na medida em que se vai tomando ciência dos acontecimentos, em que ela vai envolvendo a curiosidade, a afetuosidade, a capacidade de raciocínio e a intuição do leitor. É como comer o mesmo doce em pequenos pedaços.

Confesso que não sei escrever poemas. Escrevo breves versinhos para saciar o gosto dos seguidores de minha fanpage que apreciam as frases existencialistas, espiritualistas. Talvez um dia consiga escrever frases como as do célebre Rubem Alves, um dos maiores cronistas que o Brasil já teve, ganhador do Jabuti com seus livros de crônicas e que jamais se importou de ser conhecido como um frasista. Suas frases se encaixam na categoria espiritualista.

Voltando, não sei escrever belos poemas, mas sei escrever belos contos e crônicas, em linguagem de que jamais abrirei mão, aquela que se utiliza de recursos emocionais, de humor e outros ingredientes que proporcionam prazer, pois me recuso à linguagem seca dos autores que surgem aos punhados nas plataformas digitais e até mesmo nas prateleiras das modernas livrarias, como se fossem tudo o que a literatura tem a dizer nos tempos atuais. “Vão todos para o caralho” diria qualquer personagem de García Márquez, com toda a razão. Mas com tanta coisa que vêm sendo produzida, talvez consigamos resgatar a literatura capaz de proporcionar o verdadeiro encantamento, aquela cuja prosa nasceu no mesmo ventre da poesia e andam as duas se confundindo pelas páginas, inundando a alma e transbordando os olhos dos leitores como um rio que flui às vezes silencioso e manso, às vezes intempestivo.

Não acredito, porém, no valor maior de um gênero sobre o outro. Literatura é literatura. Apenas gostaria que o leitor tivesse, para ler um conto, a mesma disposição que tem para ler um poema. Tenho uma tendência clara a gostar mais da prosa porque só sei escrever em prosa, mas não é por isso que me daria à indelicadeza de desmerecer a poesia. Assim como um poeta não tem o direito de dizer que conto não é literatura. Porque se este poeta estiver certo, a gente precisa imediatamente avisar os vivos e os mortos: Edgar Alan Poe, Franz Kafka, Charles Dickens, Guy de Maupassant, Tolstói, Voltaire, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, etc.

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