O primeiro poema – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O tinteiro, a pena e o papel estavam lá, à minha frente, sobre a pequena escrivaninha, herança de meu avô. Eu estava tranquilo e os ruídos que chegavam da rua não me perturbavam. Lá fora, uma noite agradável se estendia sobre a cidade.

Eu procurava uma maneira de iniciar o desafio que me foi imposto pela vontade de extravasar os sentimentos por tanto tempo guardados no peito. Naquela noite, eu me preparava para escrever um poema.

Eu nunca havia escrito um poema antes, sequer pensado nisso, e aquela súbita ideia me pareceu absurda. Ela me atingiu no ônibus que vinha lotado de passageiros suados e cansados, assim como eu, depois de um dia extenuante de trabalho. O ônibus era trepidante e barulhento, mas o desejo de escrever um poema me fez flutuar ao som de uma linda sinfonia, que não sei de onde vinha, e nem notei que o percurso da viagem era tão longo.

Tomei um banho demorado, curtindo as bolhas de sabão que dançavam à minha volta e, pela primeira vez, observei os desenhos herméticos que as idas e vindas das formigas formavam no branco do azulejo.

Saí do banheiro e vesti a roupa mais simples. Fui ao quintal e reguei as plantas, conversando com cada uma. Depois, alimentei os cães e os gatos vadios que às vezes iam me visitar. Mudei a disposição dos objetos da casa e coloquei cortinas novas nas janelas.

Agora estava eu ali, na velha escrivaninha de meu avô, tendo à minha frente o tinteiro, a pena e o papel. E a firme determinação de escrever o primeiro poema de minha vida.

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