O primeiro poema do ano – Por Ronaldo Rodrigues

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Conto de Ronaldo Rodrigues

O tinteiro, a pena e o papel estavam lá, à minha frente, sobre a pequena escrivaninha, herança de meu avô. Eu estava tranquilo e os ruídos que chegavam da rua não me perturbavam. Eram os fogos recebendo o ano novo. Eu tinha marcado encontro com a solidão e estava ali no meu quarto, sozinho no mundo, com a firme intenção de escrever o primeiro poema do ano.

Eu procurava uma maneira de iniciar o desafio que me foi imposto pela vontade de extravasar os sentimentos por tanto tempo guardados no peito. Naquela madrugada de festa para o mundo, eu iria escrever um poema.

Eu nunca havia escrito um poema antes e aquela súbita ideia me pareceu absurda. Ela me atingiu no ônibus que vinha lotado de passageiros suados e cansados, assim como eu. A única diferença entre eu e os outros passageiros é que eles iriam tomar um belo banho e se preparar para a festa do ano-novo. Eu não. A minha intenção era me trancar no meu quarto de miséria e ficar só, irremediavelmente só.1600072_3790929309351_1861746970_s

A vontade de escrever um poema mudou um pouco o meu estado de espírito. O ônibus era trepidante e barulhento, mas o desejo de escrever um poema me fez flutuar ao som de uma linda sinfonia e nem notei se a viagem foi longa.

Tomei um banho demorado, curtindo as bolhas de sabão que dançavam à minha volta, e observei, pela primeira vez, os desenhos herméticos que as idas e vindas das formigas formavam no branco do azulejo.

Saí do banheiro e vesti a roupa mais simples. Fui ao minúsculo quintal e reguei a única planta que eu cultivava. Pela primeira vez, também, conversei com ela. Depois, alimentei os cães e gatos vadios que, à vezes, me visitavam. Eram as únicas visitas que eu recebia. Mudei a disposição dos poucos móveis do quarto e coloquei uma cortina na janela.1598414_3790928949342_1697756337_n

Dispensei computador e essas parafernálias eletrônicas. O meu primeiro poema seria escrito como se fazia antigamente, com tinteiro, pena e papel.

Lá fora os foguetes espocavam e as pessoas se cumprimentavam. E eu estava ali, em total solidão, com a firme determinação de escrever o primeiro poema do ano. O primeiro poema da minha vida.

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