O Século XXI…se molhou! – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

O mundo ia acabar em dois mil. A única pessoa que conheci que tinha muito medo foi o Henrique e para ele acabou mesmo, a primeiro de janeiro de 2000. Sumiu no medo. Muito mais cedo que a sua mãe que tinha um enredo monstruoso de doenças e enfermidades, aquelas que ficam no rodapé das enciclopédias médicas e recebem três a quatro nomes de ilustríssimos doutores. Médicos e professores, que descobriram seus sintomas, suas entranhas e suas estranhas formas de tomarem o corpo do ser humano. E a elas dão seus nomes. Delas, ela tinha medo, mas não tinha medo da mudança do século, coisa que ela nem sabia o certo o que era.

Às vezes confundia essa denominação com a mudança do itinerário do ônibus Pedreira Nazaré, que na sua cabeça em vez de ir pela Praça Batista a Campos poderia margear Belém pela margem do Rio Guamá. Isto ela imaginava enquanto dava os nós nos arremates dos chuleios de alfaiate que aprendera em Oriximina. Para terminar os bordados e entregá-los a tempo de festas e formaturas, chamava Henrique para entregá-los a tempo de dar tempo.

Recomendava cautela e abrigo das chuvas, que naquela região cuidam de cair aos montões, assim que um incauto sai à rua todo engomado de branco, de sapato recém-engraxado ou comendo tapioca.

Henrique dobrava as roupas pelo avesso para conservar o passamento e saía sempre acocado para que a chuva não o visse. Levava um saquinho com carvão moído, uma simpatia para espantar as chuvas da tarde. Não tinha medo de aguaceiros, sabia as rezas contra trovão, faísca, relâmpagos e corisco. Só não sabia de reza contra mudança de século.

Isso ele não sabia. Consigo sempre pensava que se mudasse o século ele podia virar mulher. Ou nascer catita e ser apedrejado pelos meninos do bairro. Ou nascer vala, cheia de água podre e rãs. Tornar-se parte das águas empoçadas, protegidas pela mãe d’água. Riu pensando em nascer sabiá. Amava as mangas coloridas e cheirosas, em que eles todos prosa passavam as manhãs, saltando de uma para outra, enchendo o papo e gorjeando felizes. O tempo fechou enquanto ele pensava nos sabiás.

Caiu uma chuva que não respeitou nem as rezas nem as promessas e muito menos o pó de carvão soprado com força na rua, ela toda virando um rio. As roupas estavam ensopadas, as dele e as da entrega. Henrique começou a chorar. Só piorou as coisas porque lágrimas eram mais água. Pensou em subir em uma das mangueiras da praça, subir bem alto, mais alto que o alto da chuva. Passar de onde os sabiás ficavam, chegar o mais próximo do sol.

Primeiro colocou a roupa embrulhada em sua camisa, que para não atrair chuva, não era de cor vistosa, o que não havia adiantado muito. Colocou um pé após o outro e foi subindo como pôde, passando pelos galhos mais grossos, depois pelos mais finos, cruzou com os sabiás em seus ninhos, assustados com aquele intruso e foi subindo aos galhos mais e mais finos, enquanto a última noite do moribundo século se ia. Ninguém viu se ele voltou. Mas as entregas foram feitas. Todos foram às festas, com roupas de festa de fim de ano e de fim de século.

Eu mesmo recebi um lenço de seda que deixei sobre a mesa. Cheio de estórias como esta.

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