Oníria – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Eu encontrei com ela descendo a rua em direção ao Campo dos Escoteiros. Vinha lá do fim do bairro do Laguinho, de saia preta, tranças no cabelo, boca levemente pintada, um cheiro de perfume patchuli, não me lembro se descalça. Caminhava indolente. Passou por mim e seguiu. Eu a olhei disfarçadamente.

Depois troquei de mão a sacola cheia de goiabas que levava para casa e atravessei para o outro lado da rua, seguido de perto pelas formigas. Subi as escadas e vi minha mãe lá no fim do quintal. Escrevia, talvez copiasse um texto de um papiro aberto sobre um tabuado. Riscava com a ponta da faca o tronco de uma árvore de ingá. Mãe estava de azul, eu estava azul e as goiabas ainda estavam verdes. Goiabas que eu apanhara na casa de Dona Ercília naquele mesmo dia onze e quinze, antes de encontrar com Oníria, que fingira não me ver.

Lá no fundo do quintal, mamãe escrevia no tronco, curvada sobre um dos ombros. Escrevia e lambia a seiva que escorria dos golpes aplicados no tronco do lado que a sombra do sol coloria. Parecia embriagada. Às vezes parava de riscar e punha-se a dançar, depois cansada ficava de cócoras. Eu estava muito cansado para comer, beber água, dormir, caminhar, subir na rede, deitar, fechar os olhos, respirar.

Então resolvi morrer.As formigas trouxeram as goiabas e com elas entupiram minha boca.

À tarde trouxe Dona Ercília, com outras goiabas que se avolumaram pela casa toda e mais de noite Oníria chegou ainda de tranças, agora quatro, um cheiro de Água de Cheiro do Ver-o-peso, nua em pelo, para o espanto dos que tomavam café e comiam pão torrado.

Ela deitou sobre mim quente como um forno de carvão, cheia de formigas.

Minha mãe veio correndo e nos separou, colocou-nos de castigo ao lado das formigas que empilhavam os pingos de chuva, os talos de goiabas e as lágrimas dos que tinham vindo chorar.

Já era sábado quando as formigas foram embora, levando as goiabas.

Minha mãe começou a contar estória de encantamente e gente do fundo, duendes e caiporas.

Eu estava febril, queria beber água, e comer fungos, bolores e semente.

Logo sarei, bebendo muito chá de sumo de ingá. As goiabas que restaram apodreceram e fizeram nascer larvas de moscas e minhocas.

Foi com elas que me criei. Quando comecei a voar fui ter com Oniria. Agora não esperei que passasse.

Esperei que voasse à frente de toda a sua colônia que gritava bem alto, seguindo-a: Rainha … Rainha …

* Do livro Antena de Arame – Rumo Editorial – Primeira Edição – São Paulo – Abril de 2016.

  • Avatar

    Já havia lido esse conto no teu livro. Nem preciso dizer que é fantástico. Diria: – É real. É irreal. E onírico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *