Pai – Crônica de Lulih Rojanski

Senhor Casemiro, pai de Lulih. Foto: Arquivo pessoal da escritora.

Crônica de Lulih Rojanski

Meu pai tem nome de poeta: Casemiro. Nasceu no Rio Grande do Sul, na década de 1930, mas não chegou a se antenar nunca na efervescência cultural da época, na Revolução Industrial, na nova poesia modernista, nos romances regionalistas, na popularização dos automóveis et cetera. Morava nos mais longínquos rincões gaúchos e precisava plantar e criar o que ia comer. Mas ouvia rádio nas altas oito horas da noite, cansado da roça, espiando pela janela a cadência das estrelas sobre o matão e com a cama já preparada para dormir. O arado à espera para a madrugada do outro dia.

Por isso sei que os ouvidos de meu pai foram educados pela mais pura música sertaneja de raiz, aquela que cantavam Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho… Aquela mesma que ele teimava em continuar ouvindo em discos antigos quando eu já era adolescente e morria de rir de seu gosto pré-histórico.

Um dia, muito tempo depois – eu já era bem adulta – surpreendi meu pai encantado com uma música que eu costumava ouvir nas ocasiões em que tentava desvendar o que fazer para unir o fio das minhas saudades à presença real do objeto de minhas saudades… Era Louis Armstrong cantando What a wonderful world.

Dia desses entrei no supermercado no justo momento em que no sistema de som ambiente Louis Armstrong iniciava: I see trees of green, red roses to / I see them bloom for me and you / and I think to myself/ what a wonderful world… A música de meu pai, pensei, e então de repente me lembrei que era o dia de seu aniversário: 13 de julho. Seu Casemiro estava fazendo 86 anos.

Deixei lá na cestinha o pacote de arroz com brócolis que fui comprar. Saí do supermercado para chorar de saudade do meu pai no meio do sol do meio-dia, pois já era tempo de me arrepender das tantas vezes que zombei do sertanejo que havia em sua alma, as mesmas vezes em que ele desligou o disco de suas poucas manhãs de folga somente para me agradar.

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