Para uma leitura de Os Lusíadas de Camões a partir do Outro – Por @yurgelcaldas

Por Yurgel Caldas

Publicado em 1572, o poema épico Os Lusíadas, de Luís de Camões, é até hoje uma obra-prima da literatura ocidental e o grande poema nacional da cultura lusitana, que coloca definitivamente Portugal no mapa das grandes obras do Humanismo europeu. Com 8.816 versos decassílabos, que se espraiam por dez cantos, esse longo poema narrativo se baseia na estrutura do clássico Eneida, de Virgilio, e trata dos feitos heroicos dos portugueses no contexto das grandes navegações – considerado o século de ouro de Portugal, que consegue expandir seu império até o Extremo Oriente.

Alguns pontos, entretanto, passam despercebidos ao leitor apressado de Os Lusíadas – normalmente um jovem estudante que é obrigado, por força do currículo escolar, a enfrentar esta empreitada tão penosa quanto a dos comandados de Vasco da Gama enfrentando “mares nunca dantes navegados”. Uma dessas questões é consequência do próprio contexto de produção da obra: o período da colonização e da expansão dos impérios entre os séculos XV e XVI na Europa. Mais precisamente, trata-se da discussão entre espaços de poder e suas possibilidades de expansão. O Oriente era o caminho, mas uma barreira se impunha: o “desconhecido”.

Esse “desconhecido” – seja a rota percorrida pela frota de Vasco da Gama, sejam as populações que os navegadores encontram pelo caminho até a Índia – era o inimigo a ser combatido. Pois bem, nesse caso, é importante destacar que o narrador de Os Lusíadas é o próprio Camões, um soldado do reino que está a postos para lutar pela expansão da fé cristã e do império português até os confins do mundo. E assim ele faz. Por mais de uma vez o poeta-narrador declara sua dupla função no poema: “Numa mão sempre a espada e noutra a pena” (canto VII, estrofe 79, verso oitavo). É com esse mote que Camões elege seu inimigo: o “mouro” – que sempre se opunha à consolidação do reino lusitano nas guerras de Reconquista da península Ibérica (Batalhas de Ourique e Salado, no canto III) – e toda e qualquer sociedade que se opunha à expansão portuguesa no período colonial. Sim, os castelhanos também são inimigos dos portugueses no processo de estabelecimento do seu reino (Batalha de Aljubarrota, no canto IV), mas os castelhanos são cristãos, assim como os portugueses. Coisa que os mouros não são, pois professam outra fé, a muçulmana.

Esse é o grande nó que precisa ser desatado na narrativa de Os Lusíadas: para se tornar a cabeça da Europa, o centro do mundo e o arauto do progresso para os povos rudes (africanos, asiáticos e americanos), os portugueses deveriam derrotar o islamismo, que no texto poético ganha outros nomes, como a “lei maldita” do Ismaelita. Assim, qualquer nação que barrasse as investidas lusitanas poderia ser um inimigo potencial – e os navegadores lusos enfrentam toda a sorte de obstáculos, desde barreiras naturais impostas pela própria natureza da viagem inédita, até as investidas sobrenaturais organizadas pelo deus latino Baco, que de tudo faz para que os nautas lusitanos não alcancem o Oriente. Mas o inimigo mais poderoso, cruel, assassino e hostil é mesmo o povo árabe e sua cultura estranha e estrangeira.

No mundo perfeito que Camões cria para louvar seu reino, não cabe a cultura árabe, não cabe o culto muçulmano nem o paganismo hindu. Assim, desfilando sua cultura exclusivista e “ocidentalizante”, onde só cabem os louvores à ordem e à razão europeia, Camões sempre trata o “Mouro pérfido” como desprezível, frio, torpe, infiel e “bárbaro gentio” e, por extensão, a África e a Ásia como “terras viciosas”. Sim, Os Lusíadas são um texto eurocêntrico e, em certa medida, lusocêntrico. Afinal, a passagem “Vós, que esperamos jugo e vitupério/ Do torpe Ismaelitacavaleiro,/ Do Turco Oriental e do Gentio/ Que inda bebe o licor do Santo Rio” (canto I, estrofe 7, versos 5-8), mais do que a voz do narrador-poeta, representa o desejo de purificação de uma raça (a lusitana) acima de qualquer outra (inclusive superior aos gregos e aos romanos) e de glorificação de um tempo de vitórias portuguesas no contexto da expansão colonial. E isso se dá por exclusão de diversas outras culturas que coabitavam no seio da Europa, inclusive, durante o período de escritura do poema épico e da própria formação intelectual de Luís de Camões. Mas sabemos que o desejo de unidade expresso na obra camoniana passa pela assimilação das diferenças, e uma leitura minimamente crítica de Os Lusíadas deve levar em conta a equação de Homi Bhabha (2003, p. 65), de que “nenhuma cultura é jamais unitária em si mesma, nem simplesmente dualista na relação do Eu com o Outro”.

*Contribuição do amigo Yurgel Caldas, que é professor de Literatura da Unifap e do Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLET) da mesma instituição.

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