PIRATÃO: A RECEITA E A FORMAÇÃO DO BOLO DOS 40

Por Alcione Cavalcante

O Bolo dos Quarenta, na realidade começou a ser preparado em 1962, quando se reuniu um grupo de jovens do Bairro do Trem, formado por R. Peixe (artista plástico dos mais renomados que o Amapá já viu pai do Sidney e do Beto Peixinho, igualmente artistas e carnavalescos de ponta da cidade). Wálber (o primeiro presidente, que além de tudo emprestava suas habilidades na produção de talabartes e sapatilhas para os brincantes da escola). Lachinha (formador da primeira casta de tamborins, animador da comunidade  juntamente com o Zé Crioulo, o primeiro, exímio tocador de um violão 7 cordas nas noites amapaenses, além de organizar o caixa financeiro da agremiação. É que naquela época já éramos organizados).

Não podemos esquecer-nos do Prof. José André (o mestre Feijão) primeiro e melhor passista da época. Jeconias Alves de Araujo (grande poeta e refinado compositor de históricos sambas da escola), Luiz do Apito (primeiro mestre de bateria, pai do Carlinhos Ba-ba-bá, que herdou do pai a habilidade com baquetas e ritmos). (Miro (Professor de Artes na Escola Industrial de Macapá), que emprestava seu imenso talento na confecção de chapéus e outros adereços e talvez o mais emocionado dos fundadores de Piratas). Citamos ainda o Pintão (elegante e leve primeiro Mestre Sala da escola), Juriel (primeiro e afinadíssimo intérprete dos sambas de enredo),  Balaca, Cristiano e  Carlitinho (ritmistas de primeira hora e professores das manhas no  surdo, na cuíca  e no repique, respectivamente).

Também não podem faltar na lista, José Maria Gomes Teixeira (o Manga), coordenador da maior Copa do Mundo, hoje, disputada no campo da Praça Nossa Senhora da Conceição), o popular Miscore (Porta-Estandarte), João Oliveira (o Saracura), Antonio Pinheiro (o Pancho), Hermenegildo Lima, da turma, vamos dizer assim da agitação e propaganda. Esse pessoal, em sua maioria era vinculado ao Grupo de Escoteiros do Mar Marcilio Dias, ao Trem Desportivo Clube e ao Clube Latitude Zero, de quem, aliás, a Escola empresou as cores (amarela, azul e vermelha). Essa turma atuava sob forte inspiração do drink mais chique daquele momento, no caso o Rum Montila, não a toa o símbolo da agremiação até hoje, e que era degustado na maioria das vezes, no Urca Bar ou no Bar do Seu Paixão, os mais freqüentados naquela época no bairro do Trem, pelos foliões e admiradores das noitadas. Detalhe interessante, naquela época não era aconselhável a participação de moças de família no carnaval de rua, quando imprescindível, o pessoal ia buscar nas casas de recreação, ou seja, nos cabarés mesmo.

Esse grupo de foliões colocou os primeiros ingredientes e lançou o fermento do que viria a ser, a partir de 1973 a Associação Recreativa Piratas da Batucada, conhecida atualmente como a “Mais Querida” ou “O Rei do Sambódromo”, ou ainda “O Rei do Carnaval”, hoje, a entidade ressaltada em pesquisa, como a de maior apelo popular do Amapá.

A partir daí a massa pegou o ponto e só cresceu, se sofisticou, caiu no gosto popular, avançou na avenida, construiu paixões de raro sabor, que arrasta corações e mentes da multidão piratista, distribuída nos quatros cantos da cidade.

Nesta nova fase, a dos quarenta anos aqui comemorados, não há como não destacar o apoio do Zequinha Gemaque, auto-proclamado Patrono da Escola, que viabilizou novas visões, através do intercâmbio com o carnaval de Belém e do Rio de Janeiro, mas acima de tudo, proporcionou a vinda a Macapá, dentre outros, Tia Zica, Ivo Meirelles e Samuca, todos da Mangueira, Luizinho Drumond e Preto Jóia da Imperatriz e contribuiu para que o Roberto Monteiro (o Monteirinho), liderasse uma grande revolução no carnaval, não só de Piratas, de quem foi presidente, carnavalesco e diretor de bateria, mas do Amapá. Fato que é reconhecido por todos, inclusive por fraternos adversários das escolas co-irmãs. Lembrar ainda que Monteiro idealizou a Liga das Escolas de Samba do Amapá.

Evidenciar o trabalho imenso de simpatizantes que deram e dão liga leveza e o sabor sofisticado à massa que é o BOLO PIRATISTA. Cito a Deusarina (Deusa) e o Antônio, costureira e figurinista de primeira hora. O Zuza, eterno, incansável e único diretor de patrimônio da Escola, hoje, dando seu nome a bateria da escola. Biroba, grande maquinista da comunidade do Trem. Pi-rim-pim-pim e Acará Voador, passistas que flutuavam na avenida embevecendo a torcida e os jurados. Pilão que mandava ver na confecção de instrumentos além de ser primoroso ritmista. Vânia e Zenaide, nossas primeiras portas-bandeira. Dadá e Tracuá nossos mestres-salas, mestres de muitos outros.  Bosco e Lindalva o casal 10, nota 10, que sempre garantiu muitos pontos para Piratas. Dona Elza que com habilidade e carinho coordenou durante muitos anos a majestosa ala das baianas. Os estilistas Sergio Silva e Arturzinho, este último se destacou durante muito tempo como o primeiro e único Rainha da Bateria de Piratas.

Da nossa ala de compositores lembrar, já citado Jeconias, o Dio, Magé e Ademar, responsáveis por belíssimos sambas que transbordaram da zona sul e viraram patrimônio do carnaval do Amapá, como por exemplo Açaí e Maní. Lembrar o Ademar Carneiro intérprete de voz limpa e segura que conduz e energiza a escola há algum tempo no Sambódromo. O Humberto Moreira (que também foi enredo da escola), o Azevedo Picanço (Raimundo !!!) e o Caxias, imbatíveis, principalmente na FAB. Manoel Torres, maior conhecedor da história de Piratas da Batucada e maior vencedor do quesito Harmonia na Escola. O Bomba, escultor de rara inspiração, responsável durante anos pelos adereços de cabeça da escola.

Não dá pra esquecer o Nonato Silva, que juntamente com o pessoal do Grupo Urucu, repensou a forma de confeccionar e apresentar as alegorias, Quem não se lembra da Mameluca? O que dizer do Estevão, com o cabelo teso, arrepiado, exausto montando o grande Tupã na Avenida no Carnaval de 97? Ah, sim! O Espiga do Cavaco, dos arranjos dos sambas, mas que gostava mesmo de sair na bateria comandando o naipe de tamborins. Da turma da bateria, Monteiro o maior de todos, Carlinhos Ba-ba-bá, Sávio, Mestre Mistura, Igreja, Guimarães e tantos outros.  Lembrar a Cleide e o Heraldo Almeida na coreografia e apresentação da sempre muito especial comissão de frente.

Registrar ainda a dedicação dos presidentes, desde o Valber, nosso número um, passando pelo Anacleto Ramos, Carlos Sérgio (pouco se lembram, mas que foi fundamental num momento meio complicado da escola), o grande Monteiro (presidente da virada), Socorro Menezes, Valdir Carrera, Dorival Santos, França, Izauro, Caxias, Sergio Lemos, Xerfan (que em vários carnavais bancou relevantes despesas na produção da escola, e contribuiu também com seu conhecimento, no trabalho de evolução e harmonia), Gilson Rocha, todos de inestimável contribuição ao Carnaval de Piratas. Cito ainda o Matta, que mereceria um capítulo a parte por sua importância dentro da Escola. Trata-se de uma espécie de chef de cozinha de grife, que com as pessoas certas, nos momentos certos e com os ingredientes acertados, fez o bolo crescer e o distribuiu em forma de emoção e alegria fraterna à toda a cidade de Macapá , sendo que com maior carinho à comunidade da  Zona Sul da Cidade.  Grande Matta.

A receita? Junta um monte de gente bem intencionada, exercite a criatividade, descentralize as responsabilidades, chame a comunidade e o resto é correr pro abraço.

Sei que faltou muita gente, inclusive eu, Lene, Dias, Nóbrega, Vinhas, Nazaré, Pedrão… Perdão a todos.

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