Poema de agora: A AURORA – Ori Fonseca

Foto: Sebastião Salgado.

A AURORA

Eu abdico do direito de ficar calado!
Enquanto a tirania quiser
Sombrear o roseiral,
E as nuvens da injustiça
Ameaçarem precipitar-se sobre inocentes,
Eu abdico do direito de ficar calado.
Antes: não abro mão do meu dever de gritar.
Neste mundo de contrários
Em que malfeitores são mitificados,
Em que demônios clamam por Deus,
Em que a fome de muitos sacia a gula de poucos,
Em que direito e dever se confundem na metáfora,
Eu quero trovejar!
Arre todos os insossos, todos os insípidos e mornos,
Arre todos os que falam e choram para dentro,
Os que respiram com vergonha e medo de serem notados.
Antes a corrosão ácida dos impropérios escancarados
À impassibilidade dos olhos cinzentos,
Dos lábios sem temperatura,
Das mãos sem ossos.

Eu não quero ter direito a nada que me cale!
Eu quero o dever de cantar.
Se desprovido eu de língua,
Meus olhos gritarão,
Meus punhos bradarão,
Meus órgãos entoarão por mim
Os cantos de revolta e guerra,
Como um galo a chamar cada vizinho
Para compor o coro ensurdecedor
E esperançoso
De um dia novo.

Ori Fonseca

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