Poema de agora: A SETA – Ori Fonseca

Ilustração: Homem com uma Flecha, William Etty (1820), óleo sobre tela.

A SETA

À noite — toda noite — está presente
O frio que lanha, invariavelmente,
A minha alma vazia.
A seta que atravessa o peito meu
Parte de um tempo que já se perdeu,
De quando o amor havia.
E um salmo triste entoa esses acordes:
“Não te acordes! Não te acordes!”.
Vago acuado em negro labirinto,
Eu sinto câimbra, eu sinto medo e sinto
A vida me faltar.
A seta que atravessa o peito meu
Não dói mais hoje do que há doeu,
Não cessa de sangrar.
E um salmo triste chora esses acordes:
“Não te acordes! Não te acordes!”.
A vida é uma vigília sem descanso,
O precipício frio do qual me lanço,
Caindo eternamente.
A seta que atravessa o peito meu
Tem ponta envolta de veneno e breu
A invadir-me a corrente.
E um salmo triste uiva esses acordes:
“Não te acordes! Não te acordes!”.
Eu tento despertar, é tudo em vão,
Dispara convulsivo o coração;
Transido, eu suo frio.
A seta que atravessa o peito meu
Enraizou-se em mim, que floresceu,
De mim nunca saiu.
E um salmo triste arqueja esses acordes:
“Não te acordes! Não te acordes!”.

Ori Fonseca

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