Poema de agora: ÀS CEGA – Ori Fonseca

Ilustração: O Velho Guitarrista Cego, de Pablo Picasso, 1903.

ÀS CEGA

Quem vê meu vulto errando nas estrada,
Um trapo ao sol, bengala de cipó,
Pensa que a vida toda eu vivi só,
Que sempre fui esta porção de nada.
Mas devo lhe dizê, meu camarada,
Que antes de vagá sem rumo certo,
Nem sempre tive esse aleijão da cruz,
De pano limpo um dia fui coberto.
E, mesmo eu sendo um servo de Jesus,
Meu Deus zangado me privô da luz.

Já tive inté lugá pra mim morá,
Bicho no pasto, fruta no capim
E alguém de saia pra gostá de mim,
Mas onde que isso tudo foi pará?
Só me restô o ofício de cantá
Por uma esmola, pelo amor de Deus,
Um grão de rapadura ou de cuscuz,
Antes que a vida me sussurre “Adeus”!
Pois mesmo eu sendo um servo de Jesus,
Meu Deus zangado me privô da luz.

Hoje eu canto nas porta das igreja
Com meu chapéu na mão e a honra no chão,
Invejando inté mesmo qualquer cão
Que tenha apenas um olho que veja
A cor da plantação quando viceja
No solo antes rachado de ferida,
Coberto de ossos e mandacarus.
Mas hoje a minha vida é está sem vida,
Que mesmo eu sendo um servo de Jesus,
Meu Deus zangado me privô da luz.

Itinerante, vou de porta em porta
Cantando o meu lamento por bocado:
— Ajude um pobre cego desgraçado
Que chora em morte viva e vida morta,
Este coitado a quem ninguém importa,
Retrato retirante da desgraça,
Desassossego que não se traduz,
Desesperança que me despedaça,
Se mesmo eu sendo um servo de Jesus,
Meu Deus zangado me privô da luz.

Ontem, cantava de contentamento,
Viola em punho pra desafiá;
Hoje, o meu canto é reza de implorá,
E da viola busco algum sustento.
Não sei dizê direito em que momento
Abri meus óio e nada mais achei
— É sonho! É a morte! — Tudo o que suspus.
E, desde então, na escuridão vaguei;
Que mesmo eu sendo um servo de Jesus,
Meu Deus zangado me privô da luz.

Apois que desandá que é minha sina,
Gastá solado no chão do sertão,
De canto em canto só estendendo a mão,
Prová da morte em vida severina,
A que alimenta as ave de rapina,
Que bica desde os óio inté o imbigo
Cada ferida viva em sangue e pus.
E pensá que já tive amor e amigo,
Mas mesmo eu sendo um servo de Jesus,
Meu Deus zangado me privô da luz.

Ori Fonseca

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