Poema de agora: – Avesso do Espantalho – Luiz Jorge Ferreira

Avesso do Espantalho

Depois que mamãe morreu, sobramos eu, uma bailarina de louça, e um dog de nome Flip.
Um sobrado enorme de frente para o sol, ficou maior ainda.
O cão viciou-se em mostarda, e eu me viciei em solidão.
A bailarina de louça tornou-se alcoólatra.Iniciou a colecionar Posters da Madonna, e filmes antigos do Paul Newman.

Todas as Quintas-feiras, assim que começava a chover, ouvíamos Jazz.
Em noites de lua cheia Frank Sinatra, e assim que íamos dormir, Tom Jobim.
Eu não cortei mais as unhas dos pés, e Flip não roeu mais ossos, e começou a comer alpiste.
As coisas de mamãe dobrei, e as coloquei dentro de um dedal.
Suas teorias sobre a preamar, e acasalamento dos botos, transcrevi em Morse.
As roupas mais coloridas, os apetrechos, os penduricalhos, e os olhares mais a fins, doei para a bailarina de louça.
Com ela a prendi a dançar Fado, domesticar Faunos, e beber orvalho.

O sol invadiu a casa. Enferrujou as janelas.
Descascou as paredes.
Empenou as portas.
Fragmentou as telhas.
Sugou as falas.
Sujou as idéias.
Apagou os sorrisos.
Por fim, exausto, foi.

Ficamos sentados ao redor de mim.
Eu, e dog , e a bailarina de louça.
Contando calados, as batidas ímpares do meu coração.
Eternamente… começando por cinco.

Luiz Jorge Ferreira

 

 

* Do Livro O Avesso do Espantalho. Scortecci / 2010/ São Paulo.Brasil.
** Além de poeta, Luiz Jorge Ferreira é cronista, contista, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

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