Poema de agora: CANSADOS – Ori Fonseca

Ilustração: Ancião Cansado. Óleo sobre tela de Morteza Katuzian, Irã (2005).

CANSADOS

Tudo parece muito cansado neste jardim,
As árvores, outrora frutíferas,
Choram a esterilidade dos anos,
As flores, efêmeras como só elas,
Despetalam-se a olhos vistos.
Os frutos do último outono
Tornaram-se adubo para a vida que insiste em ser vida.
(Por que não comemos dos frutos
Quando os podemos comer?
Por que não cheiramos das flores
Quando ainda temos olfato?)
Busco no ocaso
O nascer do sol que perdi por estar dormindo,
Busco no mercado
Os nutrientes do leite
Que rejeitei do peito de minha mãe,
Quero a inocência senil
Que me foi tirada na infância.
Mas eu não posso banhar-me
Na água que já passou
Não posso dar o beijo quase roubado,
Nem posso desistir
Dos erros que me matam.
Vivo e morro em um purgatório de SE!
Ah, se!
Ah, se!
Ah, se!
Ah, se todos os SES se consumassem,
Eu nem seria eu.
Seria um espectro de alma atarantada,
Mais duvidoso ainda do que sou,
Mais incerto do que jamais serei,
Mais atônito a confundir
Pores com nasceres de sol,
Mais desorientado do que o futuro
(Certo, por ser futuro; incerto, por ser futuro),
Feito uma bússola sem magnetismo,
A misturar oriente com ocidente,
A propor um descaminho
Onde meus amores se perderam…
Meus amores de todo o sempre
Hoje têm nome e sobrenome,
Perderam o carinho infante das alcunhas,
Agora, são Fulanos e Sicranos de Sei Lá o Quê!
Carregam no cenho o cansaço sério dos anos
E sorriem sem poesia,
Como se tomassem um susto.
Seus olhos, de pupilas imensas
Parecem secos e sem esperança,
E suas bocas carregam o arqueamento baixo
Das faces sem alma.
Meus amores de todos o sempre
Proliferaram e pensam que podem morrer.
Eu os amo a distância
E sofro com a velocidade com que a distância aumenta,
Com a insistência com que me desfiguro.
Eu miro minha cara no espelho e pergunto:
“Cara, em que fosso de vidro
Deixaste cair e morrer o reflexo de teus olhos?”
Ah, meus olhos!
Secos e sem esperança, têm pupilas imensas.
Meu ponto focal aponta para o infinito,
E eu já não posso ver
O que está a um palmo do nariz.
Quero olhar para trás
E me tornar uma estátua de sal
A contemplar os prazeres que me foram proibidos.
Os nutrientes do leite materno,
A pele da moça que amei num átimo
Ao vê-la da janela do bonde,
A infância de inocência duvidosa,
A juventude casta e dolorosa dos poetas,
A inconformidade com a carranca de Deus,
A pressa para fazer tudo
E não concluir nada,
A saudade das saudades que me mantinham vivo,
As lembranças de quando era possível
Caminhar por meu jardim
Sem que ele e eu fôssemos os cansados que somos.

Ori Fonseca

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