Poema de agora: CARAVELAS ASSOMBRADAS – Marven Junius Franklin.

CARAVELAS ASSOMBRADAS

Oh, entre tardes e tamarindos!
Temo a tempestade que se apronta
por trás do cemitério municipal
(Ela tem a forma das caravelas assombradas de Diogo de Leppe
a navegar destemidas o leito sereno do Rio Oiapoque
rumo ao Caribe)
Serão as mesmas caravelas que arrebataram
as almas trucidadas nos garimpos da Guiana
fenecidas de frio e quimera?
Oh, entre tardes e tamarindos!
Sentado na borda da rampa de pedra que leva
a Saint-Georges-de-l’Oyapock
fico a conceber o velho Zé Fotógrafo
minutando as coisas prosaicas de Oiapoque de outrora
Fotografando em “preto e branco”
madames e senhoris para a eternidade
(No silêncio das tardes cálidas e pueris
ele observava o ir e vir dos passantes
na confluência da Avenida Barão do Rio Branco
com a Rua Presidente Vargas)
Oh, entre tardes e tamarindos!
Imerso em lembranças
de quando ancorei hesitante na Praça Ecildo Crescêncio
vindo em busca de quimeras
acabando por fazer pousada tornando-me senhor
de meu palácio de vento
(Hoje escrevo para o mundo que Oiapoque acolheu
a minha existência destroçada
me tornando autóctone com cheiro de peixe e sal
tendo agora como afã navegar a esmo
pela Cachoeira do Grand Roche
e pescar bem-aventurado nas águas buliçosas do Estreito da Morna)
Ó Oiapoque, tu me deste asilo
e te dou agora
meus escritos!

Marven Junius Franklin.

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    Os tamarindos e as fotografias ficaram para a posteridade. E o tecer silêncioso do poeta, que aponta-nos outros tempos, que transbordaram no presente! Ficam os registros de versos e as lembranças poéticas que nos contam da história. Nos enche os olhos de estáticas cenas, emolduradas pela sensibilidade do poeta. Contam muito mais que o colorido real das fotos em branco e preto. O colorido que havia naquele passado presente que fluiu. No alveo dessas águas a correr no tempo, que jamais retorna ao mesmo instante… A não ser nos textos e poemas que margeiam as lembranças. Parabéns Marven! Magistral como tudo que escreves!

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