Poema de agora: CASA AMARELA – Luiz Jorge Ferreira

CASA AMARELA

Alheio aos passos do gato no telhado.
Alheio a lua minguante esparramada no vaso de plantas.
Eu ralho com Deus.Por que me fez?
Alheio a noite sobre a mesa.Alheio ao sol no prato de parede.
Eu caio em mim.
Alheio á sexta década daqui a vinte semanas.
Alheio a necessidade de um Captopril e dois AAS(s).
Eu Solo I Mio.

Nenhum dos meus passos me trouxe de volta.
Nem a reta torta, nem a veia solta, nem a língua trôpega.
Nem a palavra amarga deixou de ser o que era.
Nem os perfumes retornaram no bico dos pintassilgos, nem os filhos foram semelhantes.
Ninguém desfez, e refez os nós, os sós, os cós, os calafrios e os catiripapos.
No entanto, por muito tempo, a minha vida habitou em mim.
Como uma musica que eu fingi não ouvir.
Como uma intrusa que achei melhor não notar.
Eu um andarilho.
Com poucos metros de trilha, na imensidão de uma ilha.
E uma vontade imensa de não prosseguir.
Escrevo.
Todas as noites, aqui nesta tela estéril e vazia de um computador.
Abrigo os meus monossílabos.Que nem silabas são, nem papel ela é.

Alheio a mim e ao fim. Desaparecerei.
Restarão quilos de Captopril, toneladas de AAS.
Para serem consumidas por outros hipertensos ansiosos.
Poetas solitários, que ouvirão pisadas distantes de gatos.
Apenas gatos, andando cabisbaixos no telhado, de uma velha casa amarela.

Luiz Jorge Ferreira

*Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

  • Olho a ilustração colada ao texto.
    Não sei quem se fez primeiro.
    O texto para a imagem.
    A imagem para o texto.
    Ou por coincidência…nenhum…nem outro…os dois!

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