Poema de agora: Desamarrando balões – Luiz Jorge Ferreira

 


Desamarrando balões

A roupa ficou folgada em mim…
Mas eu a enchi de lembranças e saudades
de modo que quem me ver vai recordar de alguma coisa.
Ou sorrir por um motivo engraçado, ou lagrimar por estar defronte a uma súbita tristeza.
O sapato puído quer caminhar sozinho…se acha o dono do meu destino como eu fui do dele décadas atrás.
Sob a luz embaçada da antiga lâmpada eu crio figuras abstratas sobre a minha pálida sombra, talvez um esboço de Migliane nos becos tuberculosos de Paris…

Depois do silêncio que espreita atrás da cortina manchada de amarelo,
a Canção de Nico Fidenco barulha cutucando a solidão com sobras sobreviventes da paixão que me tornou febril por toda a caminhada.
Eu costuro pedaços desiguais de paixões e amores…e invado o Teatro para pedir desculpas aos aplausos.

Prazeroso seria eu carregar o mar nos bolsos e ensopar com eles as lágrimas secas dos tristes.
Estes não me olham frente a frente, sempre de soslaio..
São arredios aos meus votos de felicidades
E nunca dançam quando eu canto Bob Marley
Ou entoo Gilberto Gil.
Saem sutis, e amanhecem nas estrelas.

Não há janelas a abrir, não há sol a desenhar no dorso da escuridão, todos bailam em uma só direção, lamento ter te puxado pela mão para uma última dança, ter enlaçado tua cintura para imitar o vôo dos pássaros migrando para o Sul.
Lamento todas as melodias dependuradas em meus tímpanos.
E que eu em tua direção as açoitei para que entendesses o azul.

E por fim ignorei minha inútil tentativa de ser luz.
Fadigado procurando Deus entre os Vaga-lumes coloridos.
Fico na saída da sala, sem saída.
Para o resto do resto do tempo que me resta.
Embora tudo…desapareça.
Nada foi embora.
Resta-me ainda…atirar para fora de mim…
Eu.

Luiz Jorge Ferreira

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