Poema de agora: Hospedeiro da Noite Prematura – Fernando Canto

Hospedeiro da Noite Prematura

“No princípio eram pedras e paus. Então inventaram a
lança, a funda, a flecha…”

10
Mais brilhante que um cometa
da Europa surgirá um míssil
anunciando a vinda dos Quatro Cavaleiros

O espetáculo de fogo enseja
a renatividade de um Cristo confuso
entre dez mil estrelas desguiadas
e reis desintegrados no deserto

“Na batalha de Adrianópolis, no ano de 378, a cavalaria
visigoda e ostrogoda dizimou as legiões romanas: 40 mil
mortos.”

09
Genebra é a capital da atenuação
Olhares antípodas se cruzam
e o mundo suspira de alívio
ligado nas cenas de sorrisos
e apertos de mãos

“A infantaria cedia lugar ao homem montado, uma arma
dominaria os campos por séculos.”

08
Homens e santos politizam gestos
Privatizando o que não lhes pertence

Qualquer merda será lucro
na ação dos cientistas
que criam os meios
e combatem os fins
Oh infeliz modelo de riqueza
Lixo humano
poluindo inteligência

“Em 1139, um édito do Vaticano proibiu o uso da besta,
exceto contra muçulmanos. Ela era capaz de penetrar uma
cota de malha a 150 metros.”

07
Dialogamos cuspindo painas
ao vento do inverno inadiável
o ponto convergente foi a certeza:
– Após a bomba a dor acabará

Homens e robôs transformam a terra
fabricando ogivas
como quem fabrica vidro

Os arsenais se multiplicam
e as conversações aumentam

Quem sabe mesmo
são os intérpretes bem pagos
enclausurados nos segredos

“No século XIV, o uso de canhões tornou inúteis os
castelos e seus torreões. A pólvora deu impulso à busca de
armas capazes de atingir o inimigo com maior rapidez e impacto.”

06
Corre Ocidente
Corre Oriente
Corre Boiada Humana
Correm Megatons
Cidades Desenganadas
Desfile de Dentes Brancos
Sádicas Gargalhadas
Maratonas de Instrumentos
Botões e Temperamentos
Quem Ganhar Tem Como Prêmio
O Fogo Desesperado
Do Mito de Prometeu

“Um avanço simples – converte de rombuda para pontuda
a extremidade da bala – tornou o fuzil uma arma
extremamente mortal: 86% das baixas da guerra civil
americana foram provocadas por fuzis.”

05
A Paz é uma atividade guerreira

Inda que por meios mais obsoletos
o homem fere e fecha
os olhos do inimigo

Por trás do ódio absoluto
há um claro e louco canto
(Agônico)
Do homem
Hospedeiro da noite prematura

“O gás penetra em qualquer refúgio, o avião tornou
desprotegido qualquer exército.”

04
O sonho dos alquimistas
a intenção dos inventores
e a doce ilusão de Dumont
se perderam nas entranhas
do coletivo sufoco de Bhopal
do cheiro mórbido da morte
mais que anunciada
por preservadores loucos
Chernobyl, Chernobyl
Protótipo da noite longa

A noite dos fragmentos
noite dos fragmentos
dos fragmentos
fragmentos

“Mas foram criadas armas antitanques, máscaras contra
gases, mísseis que derrubam aviões.”

03
Presidente, reis, aiatolás, xeiques, anões miram botões
Coçando as mãos

Antes, porém, fazem tratados
propostas de desarmamentos
e criam sistemas de defesas mais que intransponíveis

Os botões, sem vida, permanecem
à espera do aperto inconseqüente

Nações ardem em desespero
à revelia do último momento

Pela liberdade que definha
e por seus deuses que fugiram
em carruagens de fogo

“As armas nucleares elevaram a potência de impacto a
níveis extremos, o uso de foguetes permitem vencer a
distância e a eletrônica tornou a precisão melimétrica.”

02
Bomba, bomba
Excrescência da ciência
O tumor sem cura
Letal veneno que o saber
humano
jamais fabricou

– Que mentiras devassam
o gênero humano

A doutrina armamentista
ou o cinismo deflagrado
antes das armas?

“Da besta ao míssil nuclear, a história da corrida
armamentista é uma sequência de ‘últimas armas’ sendo
sobrepujadas pela seguinte, mais letal.”

01
Como no Japão
Three Mile Island, Goiânia, Chernobyl
New York, New York, Rio ou Tumucumaque
Vivemos a iminência do perigo

a certeza do risco

e a ausência dos abrigos

“Uma arma, enfim, que colocará fim a todas as guerras.”

FOGO!!!

No outro lado da balança
Treme, inexplicavelmente
a Gênese mal começada
ao som do Apocalipse…

Fernando Canto
Belém, 1987

*Poema escrito há 37 anos, durante a Guerra do Golfo e publicado hoje a pedido do poeta, por conta da guerra entre Israel e Palestina.

 

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