Poema de agora: Ilusão – Luiz Jorge Ferreira

Ilusão

Ela nunca mais havia penteado os cabelos.
Os cabelos agora estavam todos sujos de azul.
Ela estava prestando mais atenção nas ovelhas.
Que teimavam em retirar mel de um tronco podre florido.

Aí se eu pudesse descrever a cor que o céu tinha lá adiante.
Eu diria que havia sido lilás.
Mas ela não me deixava olhar.
Ela dançava de um lado para o outro, como embriagada pelo odor dos bem me quer.
Ela costumava nessas horas deitar como outrora e rolar entre os capins entrelaçados.
As vezes imitava uma borboleta, e saía batendo as asas rumo ao horizonte.
Outras vezes não, como uma cobra coral, deslizava entre as pedras soltas no quintal, até que amanhecesse novamente.
Eu nada fazia. Eu me satisfazia em embaralhar no alguidar de açaí o passado, o futuro, e o presente.

Quando eu era menino, eu achava que ela era uma bruxa.
Reparando nas suas unhas pintadas.
Mais tarde achei que ela era Mágica, pois desaparecia em si com minhas esperanças, mais depois achei que ela fosse eu.
E assim nos conhecemos.
Em uns dias de Janeiro quando ameaçava a grande seca, e as tardes eram secas, e as noites secas eram, e a língua era seca, e o cuspe foi secando, e as lagrimas também secaram, e o seco em si secou, foi que nos tivemos um filho.
Hoje não sei onde ele anda, pode ser que transporte água no lombo dos burros para Piancó, pode ser que transporte Piancó para as águas no lombo dos burros…
Pode ser mesmo que esteja em Macapá vendendo nozes e avelãs…
Estranhamente vestido de pijama…sentado no Mercado Municipal sob o olhar atônito dos peixes congelados.

Sei que ele se chama Lázaro, e que em um dia de finados ele me enterrou, no outro ano, ele se enterrou.
Despenteando diariamente os cabelos embaraçados pela brisa beira-mar.
Ela é a única que vive.

Luiz Jorge Ferreira

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