Poema de agora: Lembranças (@ThiagoSoeiro)

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Lembranças

Ajeito as pernas. há sempre um espaço apertado para você
que cresceu além do que devia.
mas não tem explicação essas coisas de crescer.
tudo em nós cresce.
outro dia pensava em minha cidade natal.
odiava me sentir perdido, sem explicação pra essa estranha
mania de gostar das coisas pequenas e das grandes ao mesmo tempo. perdia as horas decorando letras de música,
sem saber se aquele era o meu destino, meu passo marcado.
os cheiros, os sons, o silêncio no fim de tarde quando sentava sozinho
pensando nos amigos que não tive.
minha vó tinha unhas cumpridas e sempre vermelhas.
eu via um pouco de aventura em seus olhos.
juntos falamos de coisas que mais ninguém entendia.
era como se tivéssemos uma linguagem só nossa.
há perigo demais em viver de lembranças?
só vovó sabia as melhores histórias de um tempo que eu não existia.
sempre gostei mais das histórias reais.
acho que herdei dela esse jeito para contar as coisas,
para gostar das lembranças.
ajeito de novo as pernas
e ao meu lado ninguém sabe que não estou ali.
conto as paradas de ônibus.
tem sempre que haver alguém esperando na vida.
meu lugar é outro.
meu corpo é só o lar da saudade.

(Thiago Soeiro)

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