Poema de agora: Marabaião – (@cantigadeninar)

 
Marabaião
 
Vim embora do sertão,
Onde faz uma seca danada,
Mas não há seca pior 
Que a ausência da amada…
 
Lá deixei meu coração,
Não aguentei o clima forte
Mas a minha solidão
Agravou-se sem meu norte.
 
Sem meu norte eu vim pro Norte,
Que fica mais pro Oeste,
Pouco antes do Oiapoque,
Dei adeus para o Nordeste.
 
Nessa saga viajei milhas
Em busca de redenção,
Quando cheguei, mil maravilhas:
Era água em imensidão.
 
Meu Deus do céu, que rio bonito
Outro assim eu nunca vi…
Achava que era apenas um mito
Que a gente ouve por aí.
 
Fixei-me nesta terra
Acostumei com o calor,
Mas ainda era uma guerra
Sobreviver sem um amor.
 
Pensava no meu Nordeste,
A saudade era um açoite,
Pra completar, o meu agreste
Era dormir sozinha à noite.
 
Chegou a Páscoa em um domingo,
Começou um novo ciclo:
Fui pro bairro do Laguinho
Na missa de São Benedito…
 
Nos dias subsequentes,
Muita festa e gengibirra,
Marabaixo, cachaça quente
Pra despertar alguma alegria.
 
Eu só na base do mé
Avistei uma saia rodada
E confesso que sou ré
Por olhar para a moça errada.
 
A timidez tomou de conta
Porque eu não sabia bailar
E considero uma afronta
Se inxerir sem sequer dançar.
 
Com umas doses na cabeça,
Consegui me soltar devagar,
Pensei: “antes que amanheça
Essa dama vou abordar”.
 
Já um pouco alterada,
Aproximei-me da menina.
Ela estava acompanhada,
Seu nome era Catarina.
 
Catarina namorava
Um brucutu metido a besta
Que chiava e não gostava
Que ela dançasse em qualquer festa.
 
Cada vez que ela rodava,
O mundo se rendia aos seus pés
E o ogro com a cara amarrada
A levava embora de revés.
 
No fim do ciclo os dois brigaram
E ele quis bater em Catarina
Os donos da casa apartaram
Quase às 6 da matina.
 
Ofereci-lhe uma carona
Assim que o porre passou.
Não pode vir nunca à tona
Aquilo que depois rolou.
 
Hoje aqui eu já me encaixo
E fiquei com minha nega.
Em noites de Marabaixo
A gente gira e se aconchega.
 
Ainda sinto falta do Nordeste
Mas o Norte virou paixão:
No tambor que se aquece
Entoo mais um ladrão.
 
Os triângulos e as sanfonas
Deram lugar ao batuque
Enquanto o Amazonas
Pororoca sem ter truques.
 
Lara Utzig

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