Poema de agora: Matapi: balseiro das horas – @juliomiragaia

Foto: Júlio Miragaia

Matapi: balseiro das horas

I
Chove às vésperas,
Chove no Matapi,

Mergulham meus olhos,
Sonolentos e frouxos,
Nas águas confusas
Do ano que se foi,

Cruzo a ponte
Tal quem atravessa
Passado e presente
Em direção
A futuro qualquer,

Chove às vésperas,
Chove no Matapi,

Na estação da lama
Deu hora do cheiro do café,
Deu hora dos diabos,
Indefesos e cagados,
Partirem pra Caiena.

II
Como invandir de baratas d’água,
Nos pátios em dezembro,
As esperanças,
As mais canhotas e delinquentes,
Reamanhecem às vésperas
Do porvir,

Chove às vésperas,
Chove no Matapi,
Molha o lento casco
Do caracol no asfalto,

Chove no tempo
Lançado a balsas-visagens
Que atracam e que depois partem
Em direção ao velho e indomável
Inverno amazônico.

Júlio Miragaia

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