Poema de agora: MEDO DE AMAR – Rui Guilherme

MEDO DE AMAR

Tiger, tiger, – Tigre, tigre,
Burning bright – Cujo brilho incendeia
In the forests of the night, – As florestas da noite,
What immortal hand or eye – De quem é esta mão ou olho imortal
Dared frame – Que ousou traçar
Thy fearful simmetry? – Tua apavorante simetria?
ROBERT BLAKE (“Songs of Innocence”) – ROBERT BLAKE (“Canções da Inocência”)

Vejo o amor que chega
como um grande tigre com seus olhos amarelos.

Existe um brilho satânico naquele jeito de olhar,
na maneira graciosa com que se passeia,
as patas de veludo pisando quase sem soar
no chão forrado de folhas, enquanto a cauda coleia.

Alguma coisa, um barulho, e se detém o grande gato.
Pára; olha em torno; escuta; fareja
a espreitar algo que, no mato,
a certa distância rasteja.

Pode-se ver muito bem que é uma serpente:
é uma píton, é uma enorme sucuri
que arrasta seu ventre sem pressa, indolente,
por entre toiças de canarana e piri.

Faz um calor dos infernos na selva tropical.
O tigre, a cobra, são imagens de delírio
a prenunciar, um e outra, beleza e mal.

É o amor esta flor, orquídea ou lírio?
Ou é – quem sabe – só loucura e turbulência?

Eu vejo o amor como um tigre de olho amarelo:
bonito e trágico, capaz de levar à demência;
arriscado, letal, porém belo, sem dúvida, belo…

A cobra é símbolo da prudência,
mas é também imagem da traição.
Cobra! Tigre! Dai-me a vossa sapiência!
Tirai de mim tod’essa aflição!

Aflição, sim, porque o amor é agonia
e gozo; é vinho e veneno;
a água e a sede; o tufão e a calmaria.

Diante do amor me vejo trêmulo e pequeno,
desamparado como a corça na floresta
a que o tigre se apresta a devorar.

Sou frágil presa.
Nada mais me resta
senão morrer de medo do amor
e, mesmo assim, vou me morrendo de amar…

Vejo o amor que chega
como um tigre com seus olhos amarelos.

Rui Guilherme

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