Poema de agora: MEU POETÍLICO PÁSSARO PIRADO JASMIM – José Edson (contribuição de Fernando Canto).

MEU POETÍLICO PÁSSARO PIRADO JASMIM

Indiferente e pálido
Olhou a clarabóia aberta
Sorrateiro penetrou
Como sombra de jibóia e poesia
Revelando o jeito forasteiro e rápido
De esconder suas mágoas

Nunca entrou numa de bater na porta
Prefere a emergência da madrugada
E a mania dialética de entrar
Sem pedir arenga

Enruste a mágoa pelo interfone
Por trás do verso perverso
Dizendo beber a mesma água de onça
Para saciar sua ânsia felina

Restou um gosto barroco e amargo na boca
Dor amor rancor dissabor
Passeio de rimas pobres pela persiana
De recuerdos

Nenhuma rima rica nem soneto ranheta
Para redimir a perda do sonho
A condição sonheteira das imagens
Palavras são parábolas

Ficar cada vez mais
Bêbado bosta pelo avesso
Sufoca o Bukowski dionísico
Que habita torto o porto inseguro
De sua solidão selvagem
Onde blasfemam bastardos e bardos
Que silenciam em conflitos e medos

Indiferente e pálido
Olhou a sombra do poema se esvair
Com um leve cheiro de jasmim

Escuta o jazz imaginário do dilema
Seguindo a trilha dos duendes e cogumelos
Quando a cotovia cantou
E acabou a cannabis e a madrugada

Indiferente e triste
Evidenciou a madrugada no rabo
Deu sua risada calhorda e cínica
Mandando tudo às picas
Atér o que de mais poético existe
No seu jeito de ver a aurora
Pelo espelho provisório da vida

José Edson

(*) Publicado no jornal INTELLIGENTSIA. Brasília, setembro de 1994, página 11.
(**) Título do livro de José Edson dos Santos, lançado durante a Feira do Livro de Brasília, em outubro de 1994. Edição da Da Anta Casa Editora, 108 páginas. São 72 poemas subdivididos em três partes: Zoo Inconsútil, Palavra Abissal e Corações Noctâmbulos. Representa várias fases do poeta, que se iniciou em 1972 com Xarda Misturada, em Macapá.
(***) José Edson dos Santos é poeta amapaense, que reside em Brasília (DF).

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