Poema de agora: O MOVIMENTO – Ori Fonseca

O MOVIMENTO

Quando ponho os pés em Belém,
Penso que a vida não passa;
Logo ela, a vida, apressada e mutante.
As ruas de minha vida, em minha vida,
São as mesmas, com maquiagens que eu ignoro,
Com penteados que não quero ver,
Com alguma coisa de novo querendo despontar das coisas velhas
Que se recusam a morrer.
Eu percorro cada beco
Com o mesmo sobressalto dos dias passados,
Coração acelerado pelo medo
E pelo amor.
Ah, minhas amadas que ainda vagam por aquelas ruas,
Que sorriem quase inocentes,
Que me fazem sofrer,
Amalgamadas naquela piçarra atemporal,
Naqueles charcos que não evaporam,
Naquele mato cortante e eterno.
Ah, amadas minhas, que eu jamais toquei,
Que é feito de todas elas
Aprisionadas nessas vias fantasmas?
Por que não descansam em paz
Como tudo o que vive
E que um dia se vai?
Por que ainda se riem
Num eco interminável?
O eco, repetição insistente
Do que não pôde ser calado,
E que viaja em movimento próprio
Para as bordas da eternidade,
É vivo porque se move
E move-se por ser vivo.
A vida é movimento e pulsação,
Todas as coisas vivas se movem,
Mesmo as aparentemente estática
Estão a se mover neste universo de pressas.
Os cataclismos,
As explosões,
Todas as estações
São manifestações vivas do movimento divino.
A saudade é viva
Porque é o movimento incorpóreo
Da alma em busca do que não está.
O amor é vivo
Porque é o movimento
De todos os sentimentos de desejo
A ebulir na veia
E a palpitar no coração e nos olhos.
A morte é viva
Porque é o movimento cíclico da renovação,
Da transformação em outras vidas,
Da infindável procura pela eternidade.
A poesia é viva
Porque é o movimento inútil
De tomar as palavras por arranjo
Para dar visibilidade ao que a alma
Esconde do campo visível material.
Se me movimento por Belém,
Mesmo sem estar lá,
É porque busco vida.
Busco fôlego como um afogado
Precipitando-se para a superfície.
Vejo espectros de minha felicidade,
Vejo vultos de meu medo,
Vejo minhas amadas a cantarolar
Uma ciranda em um idioma
Que eu não conheço mais,
Numa dança que eu nunca aprendi.
E vejo rastros de uma esperança
Que se embrenhou nas matas de um tempo
Que eu só consigo alcançar em sonho,
Porque o sonho é vivo…
Porque se move.

Ori Fonseca

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *