Poema de agora: ORIENTE – Luiz Jorge Ferreira

ORIENTE

Deus acabou de criar-me, e cuspiu.
Eu saí manco, correndo, tropeçando, desdentado, anão.
Por sorte duas mulheres nuas.
Jogando pedras na lua.
Deitaram-me entre elas, e eu mamei.
Elas cataram meus piolhos, teceram fios com os meus pelos.
E com os meus olhos fizeram dois Candeeiros.
Que acenderam entre o Sul e o Sol.

Primeira Manhã.

Minha irmã catava manhãs frias.
Colhia sobras de outros dias.
E mastigava avelãs.
Fazia um barulho azedo.
Preparava-se para menstruar, quando morreu.

Primeira Tarde.

Primeiro passaram os cavalos.
Magros, cheios de carrapatos.
As patas sujas de quilômetros.
Os dentes sujos da fome.
Os dorsos manchados de chicotes.
Vinham do Norte como eu.

Primeira Noite.

Bêbado de orgasmo/ tatuado de abraços/
Mudo de palavras/Cego de ver/ Quis dormir.

As duas mulheres faziam chá.
Cobri-me com as minhas mãos, agora já tatuadas.
Apaguei um pirilampo azul.
Olhei para o horizonte desenhado a mão.
Havia um torto Equador.
Era minha irmã…
…..que paria de cócoras para o Oeste, uma noite escura cheia de latidos de cão, gemidos, e demorados uis.
Fingi que dormia, e morri.

Epílogo.

Nunca mais acordei.
Quando Deus me procurou.
Eu me escondi dentro de mim.
E nunca mais me achei.

Luiz Jorge Ferreira

 

*Luiz Jorge Ferreira é amapaense, médico que reside em São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).
** Do Avesso do Espantalho, Editora Scortecci – 2010 – São Paulo.

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